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30 Abr / 15:00

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14 Abr - 30 Jul

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ISSOÉOSSODISSO | Lenora de Barros

Lenora de Barros vem construindo desde os anos 70 uma trajetória singular dentro do contexto da arte contemporânea brasileira. Transitando por diferentes linguagens e mídias suas experimentações nascem, muitas vezes, em diálogo com a materialidade da palavra no âmbito das questões colocadas pela poesia concreta, mas flertam também com a arte conceitual, a arte pop e o neoconcretismo.

ISSOÉOSSODISSO apresenta mais de 20 obras da artista entre vídeos e fotoperformances, cartazes, poemas sonoros e documentos, e tem como fio condutor o processo de criação da artista. Neste processo, é possível perceber um elemento comum: as obras de Lenora de Barros sempre se desdobram, gerando ecos em outras obras. Um texto escrito transforma-se em um vídeo. Uma performance se desdobra em uma videoperformance. Uma mesma imagem, uma boca entreaberta, um olhar assustado, aparece em diferentes trabalhos que se inter-relacionam.

A obra de Lenora de Barros é um tornar-se permanente, em que o mesmo é sempre outro. Neste processo de tornar-se outro, onde isso é osso disso, é possível entrever o gesto performático constituinte da obra da artista: esta fresta, este interstício sempre lacunar, esta dobra que se desdobra – como diria Gilles Deleuze – onde as inúmeras possibilidades expressivas de algo estão em constante devir.

O texto Há mulheres, por exemplo, apresentado pela primeira vez em sua coluna “...umas”, publicada no Jornal da Tarde, de 1993 a 1996, transforma-se em uma videoperformace,com o mesmo nome,em 2005. Uma mesma palavra, “silêncio”, pode ser vista escrita em sequências fotográficas em uma fotoperformance de 1990, mas também em um videopoema de 2006; ou ainda em uma performance realizada ao vivo como Pregação, em que a artista martela a palavra, letra por letra, na parede do espaço expositivo.

O poema que dá nome à exposição nasce em 1994, quando Lenora de Barros participa de um congresso da Sociedade Brasileira de Psicanálise e apresenta, ao lado de Arnaldo Antunes, a performance O desejo é o começo do corpo/O corpo não mente. Durante a ação, Lenora quebrava um esqueleto de plástico em várias partes e ao jogá-las no chão repetia, melancolicamente, a frase: isso é osso disso.

Em ISSOÉOSSODISSO, esta ação é reencenada em vídeo. A artista, sentada em uma cadeira “performática”- a própria cadeira, aliás, baseada em outras cadeiras presentes na obra de Lenora de Barros - quebra um novo esqueleto. Dele resta somente sua coluna, sua espinha dorsal, a última imagem da performance, que nos remete, sem dúvida, à obra Língua Vertebral, realizada em 1998 no contexto da Bienal da Antropofagia.

“Para a Bienal, mergulhei no universo de Oswald de Andrade e criei dois trabalhos – Língua vertebral e No país da língua grande, dai carne a quem quer carne. O título dessa segunda obra foi criado a partir da frase “no país da cobra grande”, que está no Manifesto Antropófago e o intuito era expressar a ideia de uma ação antropofágica e deglutidora que gerasse sentidos, linguagem. Em Língua vertebral tratei graficamente a imagem da língua, e dei a ela, através da sobreposição de uma espinha dorsal, uma estruturação”. Ela lembra, ainda, da influência de Lygia Clark, cujo trabalho teve contato na década de 1970, e do impacto que Baba antropofágica (1973) lhe causou na época.

A língua como símbolo da linguagem aparece no seu Poema (1979), uma das primeiras fotoperformances de Lenora. Aqui a língua da artista percorre as letras das teclas de uma máquina de escrever nos dando a ver não somente a gênese da prática poética, mas a relação indissociável do corpo da artista com sua própria obra: corpo-obra. É ali, na ação do corpo, de seu corpo que se submete à escrita e ao mundo que é possível fazer dele emergir algum significado poético.

A utilização do corpo, neste caso de seu rosto, também se faz presente em Homenagem a George Segal, poema visual realizado em 1975 – que se transformou dez anos depois em sua primeira videoperformance, sob a direção de Walter Silveira. Aqui Lenora desenvolve uma ação cotidiana de escovar os dentes. Sua mão e rosto, no entanto, são totalmente encobertos pela pasta de dente, em uma espécie de “paralisação” absoluta, paralisação que ecoa por toda a exposição seja na impossibilidade da fala ou na interdição do olhar: Ela não quer ver, Já vi tudo, Fogo no Olho, Calaboca, Silêncio, Estudo para Facadas...

A obra de Lenora de Barros é um eterno procurar-se. Não por acaso um dos destaques da mostra é Procuro-me (2001-2003), publicado inicialmente no caderno Mais! (Folha de S. Paulo) logo após a queda das Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Depois Procuro-me se transforma em uma série de cartazes, em mural lambe-lambe e vídeo. Quando exposta na fachada do Centro Universitário Maria Antônia em 2002, quatro cartazes plotados foram pichados e um grupo que se denominava Art-Attack assumiu a pichação. Em seguida, Lenora de Barros começa o processo de “recuperação”, ou melhor, de desdobramento dos trabalhos pichados e roubados de Procuro-me/Procura-se, que resultariam na série e mostra Retalhação.

Em Procuro-me, temos a imagem de um rosto atônito de mulher repetido diversas vezes, como em um cartaz que busca fugitivos da justiça. O que muda em cada um dos cartazes era um penteado diferente. Ela era igual e diferente: era ela e outra. E no momento em que todos procuravam os autores dos atentados – seja do ataque às torres gêmeas ou do ataque à sua obra – a artista se procurava e nesta procura a obra se desdobrava em um processo sem fim. Puro devir. Isso é osso disso.

Priscila Arantes 
Curadora da exposição 
Diretora artística e curadora do Paço das Artes

curador

Priscila Arantes

Abertura

30 Abr / 15:00

Visitação

14 Abr - 30 Jul

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visitação

De 14 de abril a 30 de julho de 2016

abertura

30 de abril - 15:00 horas

curador

Priscila Arantes