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Temporada de
Projetos

Temporada 2015

Infiltração

ABERTURA
21 julho, 2015 - 19h00
VISITAÇÃO
21 de julho a 20 de setembro de 2015
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Júlio Martins é curador, historiador da arte e editor. É Mestre em Artes Plásticas pela EBA-UFMG. Formou-se em História pela UFMG e em Artes Plásticas pela Escola Guignard - UEMG. Em 2009 participou do Programme Courants du Monde, na Maison des Cultures du Monde (Paris). De 2008 a 2011 foi Curador Geral do Museu Inimá de Paula (Belo Horizonte). Foi Curador Viajante do Rumos Artes Visuais 2011-2013, Instituto Itaú Cultural (São Paulo). Dentre as curadorias que realizou destaque para "savoir-forme", de Stéphane Vigny, "O que pode a expiração", de Pablo Lobato, "Walking Papers", de Marcos Brias, "Campos da ação noturna", de Carolina Cordeiro, “Drawing to no end”, de Bruno Cançado, “Área de:”, de C L Salvaro e “through the surface of the pages ...” – coletiva de artistas brasileiros no DRCLAS, Harvard University.
Júlio Martins
Júlio Martins entrevista Jimson Vilela

Júlio Martins: Caro Jimson, lembro-me quando nos conhecemos e você, com muito entusiasmo, me fez observações interessantes sobre as seguintes frases de Jorge Luis Borges: "Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação."

Sem dúvida, o livro está no centro da sua produção, seja por suas possibilidades formais, por suas capacidades narrativas e, talvez principalmente, pelas condições espaciais que oferece à sua "escritura", pensando que esta palavra pode resumir muitos dos seus gestos artísticos. (esta é quase uma provocação, o que significa interpretar o seu trabalho como o de um escritor que lida com o corpo e o espaço em suas palavras?). Num texto seu você diz que o primeiro verbo em relação a um livro é "abrir": "A abertura de cada página ao ar e o suor da ponta dos dedos deflagra o lento processo do amarelar. É neste lugar que se começa a escrever, a partir do simples fato de estar. A superfície do livro recebe aquilo que a superfície da pele dá."

Inicialmente, gostaria de te ouvir falar sobre o livro, naquilo que mais te encanta... por quais razões o livro concentra tantos dos seus interesses? E quais razões você encontra para desdobrá-lo ("Ouro Preto"), escondê-lo ("Volta Completa"), encerrá-lo ("Maquete adaptável ao espaço que as palavras ocupam"), expandi-lo ("Introspecção"), fragmentá-lo ("Névoa") ...?

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Jimson Vilela: Realmente, quando nos conhecemos eu estava bem envolvido com esse texto do Borges. Na época as constatações simples e até mesmo óbvias sobre o livro, presentes nesse texto e em outros textos dele, foram um encontro precioso para assentar as ideias e conceitos que eu começava a desenvolver.

O meu texto que você cita talvez tenha sido a pedra inicial para os trabalhos que venho produzindo desde 2013. Nesse texto, “Desturvar”, estabeleci uma zona de interesses plásticos e conceituais para os trabalhos que viriam em sequência, aliás considero esse texto um trabalho em si. Vejo nesse trabalho, uma série de potências que aparecem formalmente em outros trabalhos inclusive nos que você cita em seguida. Por vezes, em meu trabalho, uso as palavras para expressar o que ainda estou elaborando plasticamente.

Sobre o livro, reconheço que o meu interesse por esse objeto vem do contato com dicionários da língua portuguesa. Me encanta a ideia de algo que informa quase tudo. Um grande volume textual não-narrativo que abarca qualquer coisa visível (e invisível) que esteja ao seu redor. Me refiro aqui ao dicionário como ideia pois na realidade sempre há brechas, coisas que faltam.

Lembro também que um dos trabalhos que mais me marcou durante minha formação na universidade (2006 - 2010) foram os "empacotamentos" do duo Christo and Jeanne-Claude. Naquela altura descobri que um dos primeiros objetos a serem embrulhados pelo duo foi um dicionário. O que justificou minhas impressões sobre o dicionário.

Com o passar do tempo, o interesse pelo dicionário tornou-se um interesse por romances que se apropriavam do formato livro em suas narrativas, como o “Finnegans Wake” de James Joyce, por exemplo. E, posteriormente, por textos que lidam ou expandem a compreensão do que é o livro, como Borges magistralmente fez. Enfim, há muitos livros que me encantam, mas nos livros que uso o que me interessa é o formato.

Não sou um escritor, apesar de escrever. O meu domínio de interesse e atuação é o domínio visual e espacial. Penso no livro como um lugar, como um espaço.

Meus trabalhos foram pouco a pouco me levando até o formato livro e essa trajetória é o que impregna as páginas brancas que se estendem hoje pelo espaço. Do livro como suporte ao livro enquanto assunto e trabalho em si. Dos livros de artista até os trabalhos escultóricos e instalativos. Dos livros ocupados até os livros que ocupam.

Gosto da ideia de que as palavras possuem um corpo, pois isto pressupõe peso. E, isso somado às dimensões que uma palavra tem (dimensões dadas pelo número de caracteres que a compõem) abre caminho para se pensar na palavra de modo escultórico, tal como Carl André e Robert Smithson fizeram em seus poemas. Isso me interessa, porém o que eu desenvolvo hoje é mais sobre articular e subverter as qualidades formais do livro para investigar as propriedades espaciais do próprio livro.

Fico contente em perceber que em cada verbo que você elege para acompanhar um trabalho há noções de espaço. Honestamente não penso por verbos, mas pelas respostas que cada trabalho, após executado, vai oferecendo. Um trabalho gera o seguinte e assim sucessivamente, cada peça obriga você a correr atrás de novas soluções e consequentemente o seu conhecimento técnico e conceitual se expande. As razões para desdobrar, esconder, encerrar, expandir, fragmentar e etc. estão no próprio processo. Por curiosidade, por que você elege fragmentar para “Névoa”?

Júlio Martins: Pensei na fragmentação de um dicionário inteiro que tem suas páginas emolduradas e que formam paredes, pensei também no fato de todo os verbetes estarem apagados e restar somente o da palavra névoa, há uma obstrução parcial, tanto visual como dos significados, em “Névoa”, apenas fragmentos e vestígios se deixam ver. O que você acha? A lista de verbos talvez reverbere um trabalho do Richard Serra (“Verb List”, 1967-68), que poderíamos considerar um poema também. Mas devo ainda insistir que seu trabalho desenrola uma escrita – uma escrita no espaço e para o corpo; o que você acha?

Jimson Vilela: Entendo “fragmentação” quando você se refere a algo que é parcial em termos visuais e de significado. Mas quanto ao procedimento, creio que o formato livro é que se sustenta na lógica do fragmento, no caso fragmentos em sequência. “Tornar parede” no caso de “Névoa”, no meu entender, estaria mais relacionado a colocar todas as coisas que aqueles verbetes significam em simultâneo no espaço, subvertendo a lógica do apreender por partes do livro. Como se a leitura fosse feita de uma vez só. Como se fosse possível ver tudo o que acontece ao redor ao mesmo tempo, uma espécie de superapreensão.

Concordo quando você fala sobre “uma escrita no espaço e para o corpo”, alguns trabalhos lidam com isso. Eles seguem, fragmentam ou rebatem o espaço e/ou a apreensão do observador estabelecem um lugar.

Júlio Martins: Penso em seus trabalhos “Ouro Preto” e “Introspecção”, por exemplo, em que as páginas prolongam-se desde o livro e ocupam o espaço arquitetônico, qualificando a situação espacial, estabelecendo um lugar, como você disse. Neles, e em “Infiltração” o espaço mental do livro, da leitura e da escrita ganham contornos materiais que envolvem o espectador num enredo espacial: é aí que reconheço uma escrita no espaço e para o corpo.

Sim, em suas condições materiais o livro parece fornecer, a princípio, uma linearidade que se desenrola a partir do folhear as páginas, ou seja uma sucessão de espaços que se conectam, ou um espaço que vai sendo revelado à medida em que é lido, visitado, ocupado. Quando você espacializa as páginas, e assim cria condições de leitura na arquitetura, como deseja provocar a percepção do visitante?

Jimson Vilela: Bem Júlio, cada caso é um caso. Mas há procedimentos que se repetem em alguns trabalhos e eles criam a percepção do trabalho e o redimensionamento do espaço. Em “Ouro Preto” e “Introspecção” (montagem para a galeria Progetti), por exemplo, os trabalhos são construídos a partir de módulos que se repetem enquanto estrutura, mas variam em escala.

Em ambos os trabalhos há módulos que possuem uma proximidade corporal com o observador e é a partir desses que ele apreende os módulos que estão fora do seu alcance físico. Ou seja, o corpo e o olho apreendem o que está no eixo horizontal; e olho e a imaginação apreendem o que está no eixo vertical. Nesses trabalhos que citei há um interesse direto pela verticalidade em relação à materialidade da página.

Entretanto, quando eu olho para todos os trabalhos, posso afirmar que uma característica comum dos mesmos que é atuar como um espelho opaco, refletindo vultos e sombras do espaço onde o trabalho está. Percebi isto quando montei os trabalhos nas salas coloridas da Casa Modernista de Gregori Warchavchik, em São Paulo. Lá, as páginas dos trabalhos rebatiam as cores das paredes e logo pensei: os trabalhos estão fazendo isso dentro do “cubo branco”; talvez os olhos não percebam, mas está ali.

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Júlio Martins: Jimson, essa passagem de Walter Benjamin sobre o colecionador em "Desempacotando minha Biblioteca" me lembrou o seu trabalho "Infiltração": "Bem-aventurado o colecionador! Bem-aventurado o homem privado! De ninguém se esperou menos do que dele, e ninguém sentiu mais bem-estar do que aquele que pôde prosseguir sua existência desacreditada sob a máscara spitzweguiana. Pois dentro dele se domiciliaram espíritos ou geniozinho que fazem com que para o colecionador - e me refiro aqui ao autêntico colecionador, como deve ser - a posse seja a mais íntima relação que se pode ter com as coisas: não que elas estejam vivas dentro dele; ele é que vive dentro delas. E, assim, erigi diante de vocês uma de suas moradas, que tem livros como tijolos, e agora, como convém, ele vai desaparecer dentro dela."

"Infiltração" parece ter a origem no livro aberto, externo, aparentemente, à arquitetura que abriga sua extensão, o prolongar de suas páginas, mas a impressão de que as paredes que são infiltradas pelas páginas são também originárias de dentro do livro é muito forte pra mim. Fico pensando que a arquitetura das paredes é tanto uma estrutura como uma casca que dá a ver sua interioridade, um abrigo que é também entranhas. O espaço mental do livro ganha a tangibilidade desse cruzamento que torna as páginas e a superfície das paredes contigüas e atravessadas, um fragmento rizomático em que limites e espacialidades são infiltradas. O corpo do visitante também emerge nesse interior. Em seus trabalhos há sempre uma preocupação fenomenológica. Como você desenhou a arquitetura para o corpo em "Infiltração"?

Jimson Vilela: A “arquitetura” construída pelo trabalho é resultado de uma apropriação da arquitetura expositiva. Por conta disso, “Infiltração” é um trabalho que se adapta às situações arquitetônicas, entendo o trabalho como uma proposta específica*, tanto é que, após o período de exposição o trabalho será destruído. O que restará do trabalho serão imagens, maquetes, croquis e instruções de montagem. Entretanto, nada disso será rígido, afinal o que interessa ao trabalho é a sua estrutura axiomática: um livro de 20 cm de altura com 160 páginas de 100 m de comprimento que atravessam de um ambiente ao outro através de 160 cortes realizados em uma ou mais paredes.

O trabalho ainda não foi montado portanto não posso te dizer como o espaço da peça será construído pois “Infiltração” será feito no próprio espaço expositivo. Logicamente, o trabalho possuirá de imediato uma relação com a arquitetura, mas ir além disso agora seria fechar a peça para as condições espaciais que certamente terei de lidar no momento da montagem.

O que posso lhe dizer agora é a respeito de certas partes do trabalho as quais foram testadas com modelos 1:1. Por exemplo, os cortes serão todos feitos em router, o que garante uma precisão de 2 mm para cada um deixando as páginas justas e rentes ao atravessarem a parede.

Pensei em usar o termo site-specific. Pensei, mas na hora de escrever descobri que o trabalho não era um site-specific. Ele está mais para um Contra Relevo do Vladimir Tatlin ou uma Peça de Canto do Richard Serra do que para um site-specific. O trabalho tem uma necessidade espacial específica, mas não tem a necessidade de um lugar específico. Pensando nos conceitos do campo ampliado da Rosalind Krauss, conforme você traz pra nossa conversa a ideia de site-specific, creio que o trabalho está mais para o outro vértice do losango, ele é mais uma estrutura axiomática, pelo menos o penso desse modo. Sim, ele será destruído, mas pode ser refeito. Logicamente algumas características dessa montagem se perderão, mas novas surgirão. E, honestamente, gosto disso, faz o trabalho adquirir uma história, assim como as páginas que amarelecem. Escolher e mudar. Essas ideias me agradam pois envolvem a transformação e o acúmulo da experiência com o trabalho e do próprio trabalho. Envelhecer, essa é uma das potências que me interessam.

Júlio Martins: E nessa imagem de atravessamento, entre página e arquitetura, numa situação espacial específica o que te interessa em cada instância: espaço e página & arquitetura e livro?

Jimson Vilela: Acho que com essa pergunta vamos cair no Georges Perec, um escritor que nós dois gostamos. Lembra quando você me explicou que o editor dos livros da Sofie Calle pensa no formato dos livros dela a partir do tamanho da palma da mão? Acho que é por aí que penso o espaço e a página, aliás página é espaço, e cubo branco ainda é o espaço de leitura dos trabalhos de arte. Penso dessa forma: arquitetura e livro são espaços com algumas regras próprias e particulares; meu trabalho é um esforço para fundir e assim subverter ambas as lógicas.

Me interesso por esses objetos pois eles determinam e/ou expandem nossa percepção do espaço-tempo. O arquiteto Tadao Ando associado ao artista como James Turrell, por exemplo, ou o próprio Perec na literatura. Através do espaço arquitetônico ou narrativo eles mudam o modo como visitante ou leitor apreende o espaço: a arquitetura com o imediatismo do corpo e o livro com o poder da imaginação, essa é uma síntese dos meus interesses.

Júlio Martins: Sim, gostaria de te ouvir falar mais sobre a página como espaço de leitura e espaço arquitetônico, quais características te interessam em “Infiltração” ao estabelecer uma espacialidade que é ao mesmo tempo aberta e atravessada, analogia e concretude ?

Jimson Vilela: Em minhas anotações pessoais sobre “Infiltração”, no momento de sua elaboração enquanto ideia/projeto, escrevi:

"Infiltração" lida com o espaço do cubo branco através do espaço narrativo das páginas do livro. Do branco da página ao branco da parede expositiva, o interesse é pensar sobre a neutralidade desses espaços e em como os trabalhos de arte hoje lidam com questões narrativas que extrapolam o aspecto formal e plástico.

A ideia central do trabalho é redimensionar o espaço do livro através do espaço da sala expositiva e, consequentemente, afetar a relação do visitante com o espaço expositivo.

“Infiltração” lida com o aspecto narrativo como potência plástica, uma vez que a página em branco é o lugar onde qualquer texto pode ser depositado, porém a escrita não garante necessariamente a leitura. O trabalho sugere uma corporificação do excesso e do acúmulo de falas, fábulas e histórias que são articuladas em torno de uma obra de arte.” Porém, desejo que o trabalho vá além disso, e supere minhas expectativas e ideias iniciais.

Júlio Martins: Interessante esta leitura, eu não havia pensado nisso. Há, portanto, uma analogia na imagem que você constrói de atravessamento em que toda uma genealogia de pensamento, todo um peso de significados, se desdobra a partir das páginas em branco e cria encontros, dispersões. Cada gesto num trabalho de arte é capaz de trazer em si toda uma consciência imagética, formal, semântica... é a própria consciência da historicidade de seus múltiplos significados. O livro, aberto, dá origem a um espaço de atravessamentos, analogia do espaço mental infinito da escrita e da leitura... Constrói-se na arquitetura um gesto ao mesmo tempo arqueológico e estrutural. A legibilidade das páginas brancas não está em seu conteúdo mas nos deslocamentos e trânsitos que proporciona. A imagem de infiltração também diz mais de um movimento ...

Jimson Vilela: Sim, é sobre isto, em ambos os sentidos:

(Clique para ver a imagem 7)

Júlio Martins: E você constrói um lugar que agencia esses trânsitos, entre a dimensão material da obra, sua ocupação do espaço (arquitetônico e político), e as diversas camadas e vetores de discursos que tanto se acoplam à obra quanto também a constituem, não?

Jimson Vilela: Sim, o trabalho usa do formal para alcançar dimensões do semântico que estão para além da forma e matéria dos materiais e objetos reconhecíveis em “Infiltração”.  
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