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Temporada de
Projetos

Temporada 2015

Piquetes Anônimos

ABERTURA
21 julho, 2015 - 19h00
VISITAÇÃO
21 de julho a 20 de setembro de 2015
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Ana Maria Maia é pesquisadora, professora e curadora de arte contemporânea. Faz doutorado em Teoria e Crítica de Arte na ECA-USP. Organizou os livros Série Encontros - Flávio de Carvalho (Azougue, 2015) e Sobre artistas como intelectuais públicos (Casa Tomada e Prólogo Editora, 2012).

Entrevista com Gustavo Ferro

Ana Maria Maia
Respostas e perguntas (e assim sucessivamente)

Gustavo Ferro:

PERCURSO
Em 2011 participei da Mostra de Arte da Juventude de Ribeirão Preto e fui premiado com um projeto que consistia em realizar derivas no entorno urbano do SESC, em uma tentativa de reconhecer a cidade. Neste processo extraí alguns objetos das ruas e criei uma instalação que também era composta por desenhos de observação feitos sobre papéis que fui encontrando. Dentre os objetos estava o primeiro piquete, que cumpria a função de impedir que automóveis estacionassem em frente a um estabelecimento comercial. Após a exposição, a equipe da mostra se desfez do objeto e eu fiquei só com o registro desse primeiro piquete.

No entanto, passei a observar com mais atenção esse mobiliário sem nome e a percebê-lo com frequência em diversos lugares, cumprindo funções variadas. No início de 2012 decidi começar uma coleção, levando em consideração um padrão baseado no tamanho e na forma cilíndrica da base do objeto, que, por ser leve, me permitia carregá-lo pela cidade. Neste mesmo ano fui morar no centro de São Paulo e essa vivência proporcionou um adensamento no meu método de trabalho, que parte de caminhadas, observação e mapeamento de situações próprias desse contexto para realizar desenhos, fotografias, vídeos, esculturas, intervenções e instalações.

PROCEDIMENTOS
Com disposição, me coloco em um estado de busca, desvio do meu caminho e erro por ruas desconhecidas. Quando me proponho a isso, muitas vezes tenho a sensação de estar indo ao encontro de algo ou alguém que está a minha espera. Às vezes não encontro nada e me perco com as pernas cansadas sem saber ao certo como voltar. Ao achar um piquete descuidado, se tenho condições, o agarro. Se há um guardião, invisto no diálogo e proponho uma troca, tomo nota das especificações do objeto para confeccionar outro com as mesmas características e depois regresso ao local para substitui-los. Os objetos que crio servem exclusivamente para a troca e não constituem a coleção.

MEMÓRIA DAS TROCAS
Esse trabalho imaterial me interessa enquanto produtor de relações sociais. Sem o pretexto das trocas, eu não entraria em contato com essas pessoas. Sem as especificidades dos encontros, a coleção estaria incompleta. As histórias são várias, acumulam-se em meus cadernos de registro e, às vezes, aparecem nas montagens, sem o rigor de didatizarem o processo e sobreporem-se aos objetos em si. Em uma ocasião, estive em diálogo com um segurança patrimonial que trabalhava na Secretaria de Educação. O que possibilitou a troca foi a constatação de que o piquete não tinha uma identificação oficial, ou seja, uma placa patrimonial. O objeto foi passado pra mim por cima de uma grade, em um canto que não era captado pela câmera de vigilância. Em outro caso, o piquete substituído era usado para guardar vaga de carro em frente à residência de uma senhora. Após um ano, propus novamente outra troca e recuperei o objeto que eu mesmo tinha feito, porém, já deteriorado pelo tempo. Essas marcas inscrevem uma memória de uso nos piquetes.

COLEÇÃO
Eu sou autor da coleção e não dos objetos. Quando a apresento integralmente, colocando os piquetes uns em relação aos outros, evidencio suas singularidades de origem e também formais, seus materiais, adaptações e desgastes. Por mais que haja piquetes parecidos na coleção, eles são únicos. Trazem um pouco da individualidade da manufatura das pessoas que os criam no anonimato. Em uma conversa com o artista Daniel Murgel, na qual tentávamos nomear os objetos, surgiu a expressão “piquetes anônimos”, que adotei desde então como título.

De lá pra cá, já apresentei algumas vezes esse trabalho, sempre de um jeito diferente. Considero cada exposição uma oportunidade para experimentar os piquetes, que são como um jogo de montar, oferecem amplas possibilidades de manuseio e ocupação espacial, principalmente quando estão em maior volume. Os objetos que passaram a fazer parte da coleção Piquetes Anônimos receberam uma plaquinha de identificação metálica colada sobre suas bases, com o número de aquisição. Estipulei parar a coleção quando chegasse ao número 50 [em julho de 2015, havia 45 exemplares]. Após atingir essa meta, darei uma pausa, mas nada impede que o trabalho siga em processo.


Ana Maria Maia:

1. Qual foi o percurso dos piquetes até eles chegarem aqui?
2. Onde e como se estabelece seu método de trabalho? Como a vivência da urbanidade, e especialmente do centro de São Paulo, interferem nele?
3. Que lugares intermediários você quer estipular para os piquetes, ao realizar essa coleção? Não estão mais na rua, mas contêm memórias materiais e simbólicas da mesma. Chegam ao ambiente expositivo e seus atributos formais tornam possíveis algumas analogias tanto com a história da escultura, quanto da apropriação e dos materiais vulgares, como na arte povera.
4. Como mencionei na pergunta anterior, os piquetes carregam nas suas aparências e marcas a memória de sua origem. Você sente necessidade de reforçar essa memória com relatos ou registros?
5. Quais as diretrizes éticas dos teus gestos de apropriação dos piquetes e, em alguns casos, negociação com seus donos ou guardiões? Como a própria experiência (e não um pensamento a priori) te levou a estabelecer critérios e limites?
6. Ainda nesse assunto, como a ideia de projeto se faz presente e singular no teu trabalho? Ela está dada nas inúmeras anotações, desenhos e planos que você faz nos seus cadernos? Mas, pelo que sei, esses cadernos nem sempre antecedem sua prática. Desta maneira, acha que podem sinalizar uma inversão do projeto cartesiano, já que neles a prática antecede o plano?
7. Os piquetes abrem brecha para discutirmos autoria. Apesar de envolverem uma rede de pessoas responsáveis por escolher desde seus materiais até a sua disposição espacial, na cidade e no museu, os piquetes são atrelados à ideia de anonimato. Como enfrentar as contradições dessa rede, as visibilidades e invisibilidades sociais que ela arregimenta? Qual o seu papel dentro dessa rede de autores?
8. Na rua os piquetes são instrumentos de interdição. No museu, destituídos de sua função original, tornam-se lugar em si, sinalizam presença ao invés de ausência. Como essa troca de vocação pode ser pensada em trabalhos que, como o seu, transitam entre o dentro e o fora do sistema da arte? Como acha que a arte participa de regimes de aparição social?
9. Com a colocação de ciclovias em São Paulo, sente que o uso dos piquetes será afetado? Sua presença está diminuindo?
10. Quando e por que acha que a coleção estará completa?
REALIZAÇÃO

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