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Paço das Artes
Av. Europa 158
Jardim Europa
CEP 01449-000
São Paulo/SP, Brasil
T 11 2117 4777 r. 413/414

Temporada de
Projetos

Temporada 2015

Luz vermelha

ABERTURA
21 julho, 2015 - 19h00
VISITAÇÃO
21 de julho a 20 de setembro de 2015
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Mario Gioia é graduado pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), faz parte do grupo de críticos do Paço das Artes desde 2011, instituição na qual fez o acompanhamento crítico de Luz Vermelha (2015), de Fabio Flaks, Black Market (2012), de Paulo Almeida, e A Riscar (2011), de Daniela Seixas. É crítico convidado desde 2014 do Programa de Exposições do CCSP (Centro Cultural São Paulo) e fez, na mesma instituição, parte do grupo de críticos do Programa de Fotografia 2012/2013. No centro, produziu material crítico sobre os artistas Rodrigo Sassi, Renata De Bonis, Romy Pocztaruk, Tatiana Cavinato, Marcelo Tinoco, Beatriz Toledo e Breno Rotatori. Coordena pelo quinto ano o projeto Zip'Up, na Zipper Galeria, destinado à exibição de novos artistas e projetos inéditos de curadoria. Na temporada 2014, assinou a curadoria de Decifrações (Espaço Ecco, Brasília), coletiva com Artur Barrio, Daniel Senise, Daniel Escobar, João Castilho, Luciana Paiva e Virgílio Neto, entre outros.
Mario Gioia
Mario Gioia entrevista Fabio Flaks

M: Trabalhamos juntos em sua individual Aéreos, em 2011. Desta para Luz Vermelha, a exposição de agora no Paço das Artes, o que acha que mais mudou?

F: Aéreos foi uma exposição bem atípica. Nela, pela primeira vez, os trabalhos se voltaram para um espaço exterior, fiz uso de cor em grande parte das obras e trabalhei um tema que me permitiu uma pintura mais informal, fluida e menos rigorosa. Depois disso, me voltei novamente para temas que me permitissem uma economia de cor, trabalhos mais austeros e rígidos. Exemplo disso foi a individual em 2013 que intitulei de Cinza. E agora parece que me coloco em um meio-termo. Luz Vermelha é uma mostra que transita num universo interno, mas que remete a uma vivência externa. A cor tem papel fundamental aqui, o que chegou até a me impressionar quando vi o conjunto das obras pronto. Mas mesmo assim me parece que o fio condutor dos trabalhos continua sempre o mesmo, os temas são geralmente espaços ou objetos utilitários, próximos e cotidianos e a maneira de retratá-los também tende a ser próxima e objetiva.

M: Em Aéreos, havia uma saudável ‘invasão’ de sua pintura por ambientes externos. Já em Luz Vermelha, há novamente uma interioridade reforçada. Por quê?

F: Sim, em Aéreos eu quis trabalhar paisagens, algo que nunca tinha feito até então. Sempre tratei o espaço externo com certa parcimônia. No entanto, nas pinturas de Aéreos, havia esse interesse pelo ‘mundo lá fora’. Nessas pinturas de céus, há também a representação das superfícies côncavas das rampas de concreto que, de certa maneira, para mim, remetem aos espaços internos, limpos e protegidos que eu costumo trabalhar. Agora em Luz Vermelha, faço o caminho inverso. Trabalho com imagens que fiz em meu ambiente doméstico, que são garrafas que guardei aqui em casa, uma lâmpada do corredor do meu apartamento e minha própria imagem, para fazer menção a um espaço oposto ao meu ambiente íntimo e introspectivo.

M: Por que o autorretrato em Luz Vermelha?

F: Um autorretrato é talvez o trabalho que eu nunca faria. E acho que por isso mesmo fiz. É uma ideia antiga que sempre deixei de lado. Ele é intitulado Autorretrato sem Óculos e com Protetores Auditivos e acredito que resuma por si só o que eu quis explorar nessa mostra. Nele temos um embate entre introspecção e extroversão. Numa obra em que o artista usa sua própria imagem, ele se expõe bastante ao público, mas nesta me retratei praticamente de costas e ainda me mostro protegido contra sons e imagens numa atitude objetivamente introspectiva.

M: Você participou de um Solo Project na Arco Madrid 2014, que se tornou sua primeira experiência internacional. Tobias Ostrander (hoje curador-chefe do Pérez Art Museum Miami e com grande rodagem no meio) considerou sua pintura “fascinante” e que seu hiperrealismo era “inusual”. Como recebeu tal avaliação? Quais os outros tipos de recepção? E o que foi importante nessa espécie de vitrina?

F: Sempre acho estranho quando alguém se refere ao meu trabalho como hiperrealismo. Apesar do resultado da pintura se aproximar muito de um hiperrealismo, minha preocupação não está aí. Na abertura da Arco, fui apresentado para o Tobias e ele me perguntou o porquê de me aproximar de um hiperrealismo. No meio daquela bagunça da abertura não consegui elaborar uma resposta muito completa e respondi simplesmente que o motivo era que tratar a pintura desta maneira me impõe uma rotina e uma disciplina. E a resposta é essa mesmo. O que me interessa aqui é carregar a imagem com rotina, disciplina e austeridade. Claro que eu poderia fazer isso de qualquer outra maneira, e nos trabalhos em outras mídias isso fica bem aparente, mas optei por representar objetos que tivessem suas qualidades amplificadas por essa abordagem pictórica e que essas qualidades pictóricas fossem amplificadas pelas qualidades dos objetos representados. Talvez venha daí essa impressão de um ‘hiperrealismo inusual’...

M: Em projetos anteriores, você utilizou outras linguagens que não a pictórica, como o tridimensional, a fotografia e a gravura. Por que a mostra atual centra seu foco apenas na pintura?

F: Na pintura encontro meu ambiente mais confortável, torna-se quase que um refúgio para mim. Sua feitura é solitária e depende exclusivamente de mim, não dependo de terceiros ou de equipamentos externos ao meu ateliê. Além disso, a pintura a óleo permite dilatar o tempo, posso fazer e refazer a pintura, e é isso que eu faço, e ao mesmo tempo ela impõe um ritmo, uma disciplina e uma rotina. E acredito que tudo isso fica aparente na superfície destas imagens e é justamente isso que quero confrontar com os temas trabalhados.

Nesta mostra, basicamente represento objetos que surgiram de alguma forma em momentos de lazer e descontração. O próprio título da mostra Luz Vermelha anuncia isso. No fundo, a intenção presente nestas obras é representar a natureza dúbia dos momentos de lazer que nunca se destacam completamente da vida comum e disciplinada do cotidiano. Na pintura não tenho como dissimular o trabalho, o esforço e o tempo gastos em sua materialização.
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