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Paço das Artes
Av. Europa 158
Jardim Europa
CEP 01449-000
São Paulo/SP, Brasil
T 11 2117 4777 r. 413/414

Temporada de
Projetos

Temporada 2014

Cidade Partida

ABERTURA
24 abril, 2014 - 19h00
VISITAÇÃO
24 de abril a 22 de junho de 2014
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Paulo Miyada é coordenador do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake desde 2011. Arquiteto e urbanista pela FAU-USP, onde realizou seu mestrado na área de História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo. Trabalhou como assistente de curadoria da 29a Bienal de São Paulo (2010), compôs a equipe curatorial do programa Rumos do Itaú Cultural 2011-13.
Paulo Miyada
Paulo Miyada entrevista Ícaro Lira

- Para reunir esses objetos e imagens, foi importante para você ir até Canudos?

Foi fundamental, minha pesquisa está diretamente ligada com o trabalho de campo e o contato com os moradores da região. Estive lá três vezes nos últimos três anos e estou indo novamente agora em maio para a 3a Bienal da Bahia - inicialmente ficarei em Salvador pesquisando no arquivo público e depois algumas semanas vivendo em Canudos.
Tenho vontade de num futuro próximo sair de São Paulo e viver definitivamente nessa região.

- Quais outros lugares são importantes para sua pesquisa?

O sertão do nordeste de uma forma geral me interessa. Não separo essa investigação de Canudos de outras que venho fazendo nos últimos três anos na região. Todas têm em comum a questão dos movimentos de migração forçada e de exclusão social.
Destaco as cidades de Juazeiro do Norte, Crato e Quixeramobim no Ceará e Feira de Santana, Euclides da Cunha, Monte Santo, Bendegó e Canudos na Bahia.

- Os trabalhos reunidos nesta exposição foram coletados/montados no curso dessas viagens?

Sim, boa parte dos materiais são dessas viagens pelo sertão da Bahia e do Ceará. Alguns foram pensados durante a viagem, outros já de volta para casa (São Paulo) e a maioria foi finalizada no próprio espaço expositivo do Paço das Artes.

- Cidade Partida, nome desta exposição, refere-se a Canudos apenas ou a várias cidades? E a ideia de fratura que esse nome sugere – cidade dividida, rompida, fragmentada – diz respeito apenas aos conflitos históricos ou fala também do presente?

Cidade Partida é uma tentativa de aproximação entre a destruição de Canudos com a destruição-gentrificação que as cidades do Brasil passam hoje. Uma tentativa de higienização social que vai das UPPs cariocas ao Pinheirinho paulista, passando pelas desapropriações em Fortaleza para a Copa do Mundo e para construção de uma cidade turística: uma cidade-mercado.

- Aproveitando: o quanto você estudou a história de Canudos? É algo que você conhecia bem antes de ir para lá?

Meu primeiro contato foi com os filmes do Glauber Rocha e, depois, com o livro Sertões, de Euclides da cunha. Antônio Conselheiro é de Quixeramobim, no sertão central do Ceará – meu estado natal - e sempre tive um contato muito próximo com a sua imagem. Trabalhei inicialmente com materiais de arquivo da biblioteca de Fortaleza, da Biblioteca nacional e da Fundação Joaquim Nabuco e agora em maio estou indo para Salvador pesquisar nos arquivos de lá, mas minha pesquisa é fundamentalmente de campo, com os moradores da região, com os sobrevivente e seus descendentes.


- Que parte da história de Canudos te interessa mais?

A ideia utópica de fundar uma cidade no meio do sertão, onde tudo era dividido nos moldes de um comunismo cristão.

- E o presente de Canudos, como se relaciona com essa história?

A canudos atual é uma cidade bem parecida com qualquer cidade do sertão nordestino. Vive do comercio local, da feira livre, do bolsa família, da água do açude. Penso que a formação atual do Nordeste e devedora dessa politica oficial do Estado de esquecimento e apagamento das historias de confronto e resistência. Entender canudos é fundamental para nossa construção e formação de Brasil.


- Pensando agora no que o visitante encontra na sua exposição no Paço das Artes, podemos dizer que são “coisas” reunidas e articuladas: tecidos, caixas, bancos, pedras, sinos, pedaços e até fotografias mais ou menos velhas. De onde elas vieram?

Minha formação como artista vem do cinema: da montagem, da edição e da cinefilia. Acho que isso explica um pouco minha forma de pensar esses objetos, fotos, vídeos etc...
Elas vem da minha memória desses lugares. Gosto muito da parede com os textos é o lugar onde posso falar mais diretamente.

- Essas coisas na verdade aparecem quase sempre em relação uma com a outra. Caixas, tecidos e papéis acolhem objetos menores, mais ou menos como um paninho faz as vezes de toalha de centro de mesa sob o bule de ferro em uma casa simples de interior. Essas são relações já fixadas ou elas se resolvem de forma diferente a cada vez que você mostra o seu trabalho?

Penso que esses elementos isoladamente não tem muita força. Eles ganham uma potência quando estão em conjunto, articulados entre si, criando relações. E o espectador também cria suas próprias relações e seu próprio caminho dentro da exposição.

Esses elementos se apresentam de formas diferentes e estão sempre sendo modificados. Não existe uma forma final do trabalho, que sempre cresce para todos os lados.

- Você precisa “saber encontrar” essas coisas e, então, “saber associá-las”. Você consegue identificar seus critérios para cada um desses momentos? Como um momento se relaciona com o outro?

Quase sempre essas escolhas acontecem durante a montagem do trabalho. Costumo ficar dias dentro do espaço colocando e tirando... e esse processo de montagem continua após a abertura da exposição. Os critérios são variados. Eu sei aonde não quero ir: existe um cuidado para não cair em alguns lugares fáceis, como o mero panfleto ou o fetiche do objeto.

- E é importante que o público saiba exatamente de onde veio cada elemento? Você tem vontade de explicar a história deles ou prefere que formem uma nova paisagem, mais sugestiva de rastros de memória do que explicativa de valores documentais?

Esse é um dos cuidados que estou falando. Os dois caminhos me interessam. Tenho pensado o lugar da fala – da conversa – como algo muito importante dentro desse trabalho.
Em algum momento de junho iremos fazer uma conversa aberta, não para falar do trabalho, mas do que está a sua volta. Essa conversa, junto com a publicação que está disponível na recepção do Paço, me parece que fecha melhor o trabalho.

- E quanto ao conjunto da exposição? Você o entende como uma espécie de compêndio, livro aberto e/ou narrativa?

Um livro aberto. Que ainda está sendo escrito e que pede para ser escrito junto.

- Em todo caso, acredito que há abertura para leituras as mais variadas. É possível se apegar ao conjunto como uma arqueologia das ruínas de um passado marcado por destruições ou como uma astrologia cifrada das construções e conflitos futuros. Que cidades e/ou contextos sociais te interessam mais hoje em dia? Onde estão aparecendo novas “cidades partidas”?

No centro de são paulo com as ocupações. E na tentativa de uma direita-PSDB de barrar o Plano Diretor e o novo IPTU. Nas UPPs do PMDB no Rio De Janeiro. No aquário na praia de Iracema em Fortaleza do Cid Gomes. Nas remoções para a Copa Do Mundo.
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