O conceito de instabilidade denomina algo que não tem
estabilidade, que é suscetível de tombar, cair, virar; que não é
constante, que muda; é variável, mutável. Essa definição serviu de mote para
reunir um conjunto de artistas de distintas gerações, que em suas produções
lidam com essa falta de permanência, ou uma estabilidade controlada no limite
da desconstrução sob diferentes perspectivas. Em parte dos trabalhos essa
questão pode se apresentar através de um fluir constante ou uma possibilidade
de alteração de sua forma como resposta a uma ação imposta pelo artista, ou
pela participação do visitante. Sua estrutura nunca se fixa em uma forma
permanente. Outras obras se encaixam na exposição por oposição à ideia
de estabilidade. Apresentando-se formalmente completas, elas trazem elementos
em repouso sob a ação de um conjunto de forças que se anulam e estabelecem o
equilíbrio, mas estão sempre no limite de desfazer ou desalinhar com a adição
de uma nova força, seja ela o toque ou o vento.
Nos trabalhos de Geórgia Kyriakakis, Helenas de Óleo, de 2002, e Coordenadas, de 2011, e na série de
objetos apresentados por Marina Weffort, materiais estão alinhados em uma
estabilidade frágil; parecem estar no limite da
desconstrução. Ainda não, de 2010, da
artista Ana Paula Oliveira, e Mona Lisa,
de 2011, de Laura Vinci, apresentam sempre em transformação, há sempre um
movimento. No vídeo Naufrágio, de
2006, de Laura Belém, o desenho de uma caravela se desfaz sobre a ação da água;
e em MARÉ [vers.1.3], de 2009, de
Marcelo Moscheta, três imagens de mar tentam se alinhar e formar um horizonte.
Em Untitled - silent area/ monologue
area/ dialogue area, de 2008, Maurício
Ianês faz proposições ao público e a obra se concretiza a partir de sua percepção
e participação.
Se o que é líquido ou fluido é uma constante nos trabalhos,
talvez seja porque essa é a matéria mais desafiadora de se moldar, conter e
controlar. Está sempre sujeita ao acaso. Se há um controle, ele nunca é
permanente. Por mais que se apresente uma obra no espaço expositivo, ela está
em constante transformação ou sujeita a ruir sob a ação ou a ausência de uma
força.
Douglas
de Freitas (São Paulo, 1986) é curador da Capela do Morumbi (unidade
do Museu da Cidade de São Paulo), onde realizou em 2011 a performance de
Maurício Ianês e a instalação de Tatiana Blass, e coordenador de produção e
execução dos projetos do edital de Arte na Cidade, realizado pela Secretaria
Municipal de Cultura. É bacharel em Artes Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina,
foi estagiário da Curadoria de Artes Visuais no Centro Cultural São Paulo
(CCSP) de julho de 2006 a
maio de 2008. Desde 2008 trabalha na curadoria e programação do Museu da Cidade
de São Paulo.