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Temporada de
Projetos

Temporada 2011

Paisagens à margem

ABERTURA
11 abril, 2011 - 19h00
VISITAÇÃO
11 de abril a 19 de junho de 2011
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Josué Mattos é historiador da arte e curador. Graduou-se em história da arte e arqueologia na Université Paris X Nanterre. É mestre em história da arte contemporânea pela mesma instituição. Obteve o título de master 2 em práticas curatoriais e gestão da criação contemporânea na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Foi curador de Por aqui, Formas tornaram-se atitudes (Sesc Vila Mariana – Polo Bienal São Paulo), Terres et Cieux – Sandra Cinto e Brígida Baltar (Mairie du VIIIème, Paris) e Projection (RATP, Paris; e La Casa Encendida, Madrid). É curador do Museu Casa de Portinari em Brodowski, São Paulo.

Paisagens à margem

Josué Mattos
Não parece haver nada mais arbitrário do que afirmar que o espaço indicado pelo título da exposição de Lucas Arruda, Mariana Galender, Mariana Serri e Mariana Tassinari sinaliza especificidades que permitem a aproximação de suas produções. Trata-se de uma coletiva de dois pintores e duas fotógrafas que se reúnem há tempos, investigando de modo sistemático o lugar da paisagem na produção contemporânea. Mas, fossem evidentes ou imperceptíveis, essas especificidades anunciadas – pela escolha do título da exposição por parte dos artistas – não constituiriam um lugar-comum, seja para as pinturas de Lucas e M. Serri, ou fotografias de M. Tassinari e M. Galender. Ele seria visível apenas no modo como os artistas lidam com a paisagem: ela deixa de ser gênero e torna-se ferramenta e objeto de investigação na construção de narrativas seriais. E ainda que os artistas enunciem de modo recorrente um interesse comum pelo periférico, mostrando o avesso do cenário urbano, restituindo à pintura contemporânea paisagens bucólicas, ou inserindo nelas elementos geométricos e/ou arquitetônicos, as linhas paralelas que constituem suas produções se encontram nesse lugar que vê a paisagem como artifício.

Talvez por isso haja em Paisagens à margem uma forte intenção de não fazer alusão à territorialidade. Sendo obras que se aproximam pela maneira como instauram relações inusitadas entre pintura e fotografia de paisagem, a exposição parece encaminhar o espectador a um lugar fronteiriço e sem estabilidade definida, tanto por parte de amarras conceituais quanto por aproximações formais. Contudo, apesar do estranhamento que suscitam enquanto convivem juntas na exposição, essas obras poderiam ser comparadas a um grupo de estrangeiros tentando encontrar palavras e gestos para se comunicar. Criando linguagens subjetivas em reação à dificuldade de se comunicar umas com as outras, a produção desses artistas instaura meios de comunicação capazes de expressar melhor o que têm a dizer, diferente do que aconteceria caso estivessem em seu lugar de conforto, sua língua materna. Isso porque há um enorme prazer em desocupar o lugar de conforto, o que parece acontecer na jovem, porém densa, produção desses artistas.

Isso é visível tanto nas inserções geométricas e arquitetônicas de M. Tassinari (Sem título, 2010), que interrompem a organicidade da paisagem, tornando-se indícios da presença do homem em campos e montanhas longínquos. Nas incursões de objetos e arquiteturas que aparecem de modo peculiar em algumas pinturas de Lucas, como Sem título (Série Chiesa, 2010), em que as igrejas eliminam a continuidade da linha horizontal que divide os campos de cor inferior e superior da tela. Em várias pinturas de M. Serri, como exemplo vale descrever Talude de rodovia (2010): blocos de concreto convivendo com cores saturadas, as quais, antes de representar um local específico, aparecem como membranas que cobrem a paisagem, reconfigurando seu aspecto ordinário; ou nas fotografias da série Reverso (2010), de M. Galender, que surgem não pela inserção de elementos na paisagem, mas pela captação de imagens que querem mostrar o avesso do que se transforma em obstáculos visuais da paisagem que o circunda.

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Conversas fruitivas de ateliê por Josué Mattos

Paisagens à margem é resultado de um diálogo de longa data. Surgiu por volta de 2004, a partir de encontros sistemáticos em ateliê coletivo. Situado na Rua Cunha Gago, no bairro de Pinheiros, o ateliê existiu até o momento em que a casa foi demolida, incluída no avassalador projeto de revitalização dessa área da cidade de São Paulo. No entanto, outros vínculos permitiram que os artistas mantivessem diálogos em torno de interesses comuns em poéticas visuais. Esses vínculos resultaram em grupos de estudos, exposições e encontros informais, reunindo múltiplos olhares sobre a produção artística contemporânea. Para além da ideia de buscar o lugar da pintura e da fotografia, os artistas estimulavam a investigação de convergências e divergências a partir das quais poderiam encontrar aproximações simbólicas entre seus trabalhos. Contudo, daí a imaginar que essas conversas tentavam potencializar o aspecto pictórico da fotografia e vice-versa pode ser um grande engano. Em realidade, a consequência do encontro desses artistas instigou o estreitamento do diálogo dessas duas categorias artísticas, sem as resumir em uma metalinguagem. Assim como também não existia a intenção de identificar especificidades capazes de desvincular uma da outra, algo recorrente quando ambas se confrontaram pela primeira vez, na ocasião do surgimento da fotografia.

Por tudo isso, esse diálogo torna-se pouco compreensível à primeira vista, já que é no distanciamento formal e no resíduo dessas linguagens simbólicas que está o interesse da exposição. Assim, diante de tal conversa intraduzível, por não buscar clareza e sim confronto entre artificialidade, camuflagem, paisagens bucólicas, concretas e territórios limiares, os artistas propõem atritos que geram ruídos tão disléxicos quanto as relações e intervenções do homem na paisagem. Afinal, estar à margem não parece deslocar a paisagem do lugar que ela ocupa no mundo. Ela mantém-se o que é. Em compensação, o contrário é visto no conjunto de 16 obras reunidas na exposição: a margem passa a ser a linha imaginária construída ao longo da história, separando artificialmente o homem do que o circunda.

Para além desses ruídos, é precisamente na ideia de pesquisa, troca e diálogos entre artistas que Paisagens à margem parece se aproximar de exposições propostas nos anos 1980 por Leda Catunda, Sergio Romagnolo, Mônica Nador e Ana Tavares. Pois tanto os jovens artistas da exposição Paisagens à margem quanto os mencionados acima, todos foram motivados pela amizade e interesse em aprofundar suas pesquisas em poéticas visuais quando propuseram exposições capazes de mostrar o resultado de produções consequentes, atreladas às conversas e trocas em seus ateliês. 
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