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Paço das Artes
Av. Europa 158
Jardim Europa
CEP 01449-000
São Paulo/SP, Brasil
T 11 2117 4777 r. 413/414

Temporada de
Projetos

Temporada 2010

Tens que comer do pão

ABERTURA
22 novembro, 2010 - 19h00
VISITAÇÃO
22 de novembro 2010 a 09 de janeiro de 2011.
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Marcio Harum coordena os programas de oficinas Experiências Dialógicas, voltado às práticas curatoriais no Centro Cultural da Espanha (www.ccebrasil.org.br/talleres), e o Cada 2, orientado aos artistas em formação no SESC Pompeia, ambos em São Paulo. Participou do comitê curatorial do programa Rumos Artes Visuais 2008/ 2009 do Itaú Cultural e foi assistente curatorial da 27a Bienal de São Paulo em 2006. Integra a equipe de críticos da Temporada de Projetos do Paço das Artes desde 2009. Vive e trabalha em São Paulo.

Tens que comer do pão

Marcio Harum

GWAR!

Godzilla

O enfrentamento do mundo 3D por Tiago Judas na Temporada de Projetos 2010 é de fazer suspender a respiração dos incautos. Seu trabalho, que nos é apresentado aqui, evidencia, sobretudo, uma memória visual privilegiadamente desorganizada, com marcações rítmicas de uma forte e viva intuição.

A narrativa ficcional de O mistério líquido e a fatalidade sólida retrata a figura do artista como um personagem de si próprio. Valendo-se de recursos das histórias em quadrinhos, o entendimento desta obra surge a partir dos balões de texto que ultrapassam a velocidade da luz lançada no skyline volumétrico dos prédios em miniatura da cidade instalada no Paço das Artes (um estudo para maquete). A barreira do som poderia ser facilmente quebrada se pudesse haver, talvez, a composição de uma trilha musical, um experimento colaborativo também para esta peça, como já ocorreu em outras de Judas.

A arte posta sob o pensamento deste artista-personagem é compartilhada ao longo da leitura de seus quadrinhos, o que sugere tal enraizamento em uma nova personalidade e a renovação de sua produção em processo.

O mistério líquido e a fatalidade sólida propõe uma iconoclasta expedição de reconhecimento pela geometria urbana. Enquanto prédios novos vão sendo derrubados, símbolo de um passado que tem a cidade como sujeito, desenha-se na exposição o percurso de uma caminhada interior de reconstrução, movida a passos de chumbo acerca do protagonista instinto metropolitano de sobrevivência, gerador de lutas travadas no cerne do anonimato existencial – algo como uma violenta reação disparada através das cores geométricas, ao avistar por um triz o abismo de ser engolido pelo asfalto absoluto.

É o duo-uno o que mais importa, o que vai além do significado que é atribuído apenas a uma série de desenhos, mas que, contudo, mostra o embate da razão e da emoção que atravessa um artista diante de sua história em quadrinhos recém-saída da prancheta direto para as paredes de uma exposição.

GRICH, GRAUH: o desafio do Monstro. Cada qual com o seu.

Ilha de Itaparica, BA

set 2010

--

Atendendo a pedidos: entrevista com Tiago Judas, por Marcio Harum

(concedida por e-mail entre agosto e novembro de 2010)

Marcio Harum: A que você credita o surgimento da figura do “monstro” no seu trabalho?

Tiago Judas: O Monstro é só um dos três pontos dos quais preciso para construir um Triângulo; os outros dois são o Robô e a Estrela.

O Monstro é contraponto ao Robô, e vice-versa; a Estrela vem para unir, formando, assim, uma única forma, o Triângulo.

O mais importante é o Triângulo que surge como uma solução para minha busca.

Em uma das minhas HQs, OMEDODEEDU, a resposta vem da Linha do Horizonte que só o mar pode proporcionar. Neste caso, a resposta é uma Linha Reta, uma Linha que não divide e ensina que o Céu e o Mar são uma coisa só.

Durante um tempo trabalhei com a ideia do Mar ser o lugar onde todas as histórias vão desembocar, pois só lá podemos realmente nos limpar, nos renovar. Água, Sal e Mistério.

Até então não via outra alternativa.

Quando desenhei a H.Q. O Direito de Subir, descobri a Estrela como outra possibilidade para seguir.

No Universo, lugar que não tem teto, chão nem parede, de repente surge brilhando um ponto de referência, um lugar onde mirar, um objetivo.

Entre o observador e a Estrela, uma Linha Reta.

A Estrela é também uma forma geométrica, um pentágono que une os cinco sentidos, os cinco elementos. Venho percebendo a Estrela com uma grande força de união.

Então, temos de um lado o Monstro, o Cérebro Reptiliano, o instinto de sobrevivência e, do outro, o Robô, o Cérebro Intelectual que se expressa através de pensamentos, tudo para gerar um conflito.

Mas a Estrela vem transformar dualidade em unidade. O Triângulo é uma seta que indica o que está no Alto. Cérebro e Coração trabalhando juntos nos dá o Direito de Subir.

Pai, filho e Espírito Santo. Uma única Luz.

A guerra entre o Monstro e o Robô é óbvia no nosso dia-a-dia e comum tanto dentro da gente quanto nos filmes de ficção científica. Na HQ O Mistério Líquido e a Fatalidade Sólida, essa batalha não acontece, pois cada um encontra o seu Lugar.

Penso em todas as Linhas do Horizonte do mundo juntas, como uma única reta contínua, formando uma enorme base para um gigantesco Triângulo Equilátero.

Mesmo nos lugares infestados de prédios, que consomem qualquer possibilidade de se avistar um horizonte. Ainda temos na nossa memória um lindo Horizonte Azul para somar à base desse Triângulo. Para isso existe o equilíbrio entre o Céu e Mar, Monstro e Robô, Coração e Mente, Alma e Corpo...

MH: Comente sobre as suas experimentações com as trilhas de histórias em quadrinhos.

TJ: As histórias são muito vivas na minha cabeça, elas se espalham e ocupam o meu almoço, a televisão, a minha hora de passear no parque... Gosto de vê-la respondendo perguntas, fazendo-me perguntas, transformando-me em Astronauta enquanto estou no metrô. A História, depois de desenhada, continua viva, continua contando outras histórias das quais eu nem me dei conta enquanto escrevia. Então, ver uma música soando das sequências desenhadas, ver desenho gerando som, é continuar vasculhando esse universo.

Participei, até agora, de todas as trilhas que compus para as minhas HQs. Eu não sei tocar nenhum instrumento musical, mas trabalhei com ótimos músicos de cabeça aberta para o diálogo. O prazer é inenarrável. Vamos lendo a história juntos, compartilhando as sensações que ela nos trás, e um olhar do personagem, o contraste de claro e escuro são motes para os sons; eles se transformam em um som eletrônico de um teclado velho e empoeirado ou em um estardalhaço com pratos de uma bateria. Já usamos violoncelo, voz e até copo de água com canudo para fazer som de bolhas.

O som encarna na história. Ele funciona como a alma no nosso corpo. Dá toda uma personalidade para a narrativa, renovando, assim, meu trabalho. Transformando algo solitário de desenhista sentado na prancheta em uma apresentação com banda no palco.

MH: Que lugar a banda ZOX teve na sua produção artística ainda como estudante de artes?

TJ: Nessa época eu estava encantado com uma fita cassete que descobri com um Ufólogo amigo meu. Nela tinha gravada a mensagem do Comandante Ashtar Sheram. Essa mensagem foi captada acidentalmente por um rapaz que estava gravando a música Stairway to Heaven que tocava na rádio, quando, de repente, a fita acelerou e rodou até o final (CLÁK! )...

Quando ele voltou a fita e escutou a gravação, estava lá a mensagem do Comandante Ashtar!

- Saudações habitantes do Planeta Shan ( a terra )

Eu passei a escutar exaustivamente essa fita e reunia amigos para escutar em casa. Passamos a desenvolver muitas coisas juntos partindo desses encontros.

Um dia, desenhando na mesma mesa com meu amigo, o Fellipe Gonzalez, cada um desenvolvendo uma HQ, perguntei para ele, Você sabe qual é o barulho que faz quando passamos de uma dimensão para outra? Ele me respondeu prontamente como se fosse óbvio “ZOX!”. Desenhei essa onomatopéia na minha história, que virou nome de todas as experimentações que fizemos na época. A banda ZOX foi uma delas.

Costumávamos fazer coreografias de “danças ZOX” para apresentar de surpresa nos corredores dos supermercados, desenvolvíamos “roupas ZOX” especiais para “apresentações ZOX”, fazíamos “cartazes ZOX” para colar sobre os outdoors nas ruas.

Também nos reuníamos para estudar astrologia, Nostradamus, Drummond e para colocar sabão em pó com água no chão de azulejo e ficar escorregando...

Nesse período, também fizemos muitos vídeos, um deles é justamente o Documentário ZOX – 1999, onde o “Tratado ZOX” é apresentado por um narrador, enquanto imagens de todos esses momentos vão ilustrando as ideias do texto.

Os shows da “banda ZOX” eram o lugar onde tudo isso culminava; para mim o mais legal era escrever as letras das canções. Eram poemas bem plásticos, inicialmente inspirados na poesia concreta e na poesia de Lewis Carrol. Escrevíamos sempre em grupo.

A música era feita instintivamente, ninguém era muito músico. A gente ia apertando as cordas até chegar ao som que queríamos. Era quase uma escultura com baixo, guitarra e bateria.

Teve um dos componentes, o Sérgio Bonilha, que tocava um CD player; ele ficava com alguns CDs e ia disparando trechos durante a música, como um sampler bem tosco e acidental.

Outra coisa boa de ter banda era inventar ações para o show, uma vez tocamos com óculos, que eram, na verdade, uns recipientes plásticos que prendíamos na cara com elástico; enchíamos de água e colocávamos um peixinho dourado dentro de cada máscara. Ficávamos tocando com um peixinho nadando bem na frente dos nossos olhos. Para abrir esse show escolhemos um trecho da famosa música cantada pelo Fagner, Borbulhas de Amor, que é versão de uma letra de Juan Luiz Guerra feita pelo Ferreira Gullar.

Tenho um coração

Dividido entre a esperança

E a razão

Tenho um coração

Bem melhor que não tivera...

Esse coração

Não consegue se conter

Ao ouvir tua voz

Pobre coração

Sempre escravo da ternura...

Quem dera ser um peixe

Para em teu límpido

Aquário mergulhar

Fazer borbulhas de amor

Pra te encantar

Passar a noite em claro

Dentro de ti...

Um peixe

Para enfeitar de corais

Tua cintura

Fazer silhuetas de amor

À luz da lua

Saciar esta loucura

Dentro de ti...

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