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Temporada de
Projetos

Temporada 2009

Plano de reconversão de logradouros culturais - Pineapple Luxury Complex

ABERTURA
23 abril, 2009 - 19h00
VISITAÇÃO
24 de abril a 22 de junho de 2009.
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Gustavo Motta é artista e crítico. Mestre em Artes pelo Programa de Pós-graduação em Artes Visuaisna ECA-USP. Graduado em Artes Plásticas pela Universidade de SãoPaulo

G.H. Associados

Gustavo Motta
Concebido pelo poder instituído, com data de fundação prévia, nos termos que especifica, no uso das atribuições que lhe são conferidas por palavra, e entrando em vigor na data de sua publicação e até a presente data, em caráter inapelável, torne-se público:

Plano Geral de Metas e Benefícios
Plano de Reconversão de Logradouros Culturais (PRELOC)

O desenvolvimento urbano sem um planejamento prévio traz, ao longo do tempo, conseqü.ncias desastrosas para a qualidade de vida das grandes cidades. O agravamento do trânsito, a insuficiência do serviço público, a concentração da atividade comercial, o empobrecimento da periferia, a infestação de pragas como ratos e pombos e a perda da sensibilidade são apenas alguns fatores que podem ser listados como resultado de um compromisso frouxo da administração pública.

Tomando São Paulo como base para este estudo, observamos que o funcionamento e a capacidade de articulação entre interesses públicos e privados estão aquém do seu potencial. Lugares onde estão presentes todos os ingredientes que se corretamente trabalhados poderão apontar caminhos para fomentar o maciço desenvolvimento, descentralizando os atuais centros comercias, na tentativa de transformar cada bairro um sistema completo, harmonioso, produtivo e com relativa independência. Os centros de bairros, quando adequados a estimular o consumo, são elementos naturais de polarização, difusão, equilíbrio e sustentação, sejam eles de tradição e história ou configuração mais recente.

No sentido de realizar esta multipolarização das atividades produtivas, o elemento focal do PRELOC são os centros culturais, pelo potencial de valorização do entorno imediato, através da dinamização das atividades de cultura e lazer que atraem investimentos, inclusive através de leis de incentivos fiscais. No entanto, nota-se que parcela dessas instituições possui graves problemas tanto de ordem estrutural como de conservação dos seus equipamentos institucionais e urbanos, especialmente quando localizadas em regiões que ainda precisam de melhorias para se desenvolver plenamente. Nestes casos, tais centros de cultura se inserem como ‘ilhas’ dentro de um bairro já constituído. São necessários faróis que conduzam veleiros que, de sopro em sopro, desbravem estas ‘ilhas’ e tragam os cocos para a sociedade. É a partir destas considerações que foi concebido e faz-se público o Plano de Reconversão de Logradouros Culturais (PRELOC). Sua implementação viabilizará a otimização dos espaços que estes centros culturais ocupam e a elevação da qualidade de vida em torno destes, ligada intimamente à paisagem da cidade, incentivando o preenchimento dos vazios urbanos e proporcionando penetrações visuais e físicas em todas as direções. 
As propostas das ações apresentadas no PRELOC visam melhorias para problemas como fluxo de veículos e pessoas, adensamento imobiliário abrangente, valorização de imóveis, aproveitamento de terrenos improdutivos e reafirmação de vocações comerciais, além do bem estar e do entretenimento. O PRELOC se apresenta verdadeiramente como um instrumento básico de reconversão urbana, focalizando-se em terrenos já ocupados, porém não utilizados plenamente, tanto fisicamente quanto funcionalmente, prevendo o cumprimento da função social da propriedade.

Objetivos
O PRELOC será composto de diversos projetos específicos e estudos de caso em diferentes localidades, elaborados por uma equipe de profissionais qualificada. Considerando que as características dos espaços da cidade, além de suas qualidades intrínsecas, são também expressas pelas edificações que lhes servem de parâmetro, é fundamental que as novas propostas visem unir sofisticação técnica e exuberância formal, a fim de valorizar os investimentos e, conseqüentemente, os municípios que os contêm. Lugares exclusivos, capazes de exercer um poder de atração significativo. Desta forma, entenda-se que o objetivo maior das intervenções será a melhoria, ampliação e promoção quantitativa e qualitativa do espaço. e devem contemplar, panoramicamente, os seguintes objetivos:

• ocupar e propor novas atividades para as existentes na área foco de intervenção;
• criar áreas e equipamentos públicos e privados, compatíveis com as novas condições potenciais de centralidade da área foco de intervenção e com suas características de acessibilidade e com a presença de atividades produtivas;
• fomentar a beleza visual e o consumo.
A elaboração das propostas serão compostas de duas escalas de abrangência: área-foco e região-referência. A partir do levantamento e escolha dos logradouros culturais elegíveis considerar-se-ão:

1 - Sistema viário, transporte e infra-estrutura urbana:
• A articulação física e funcional entre a malha viária existente e o terreno alvo; a necessidade de promover a integração intermodal e a aceleração do fluxo. Deverão ser propostas novas formas de interconexão entre as porções situadas a norte-sul e a leste-oeste, de modo a integrá-las espacialmente.

2 - Espaços livres, questões ambientais e paisagísticas:
• A concepção e articulação de espaços públicos e privados deve se caracterizar como um sistema integrado à malha urbana;
• As propostas devem considerar a situação geográfica da várzea, suas potencialidades e restrições;
• Deve ser prevista a articulação física e funcional do novo elemento estruturador da área foco de modo a valorizá-lo como fato arquitetônico urbanístico atrativo, incluindo nesta tarefa a utilização de:
_ Luz: melhorar a iluminação de praças, ruas e prédios, afastando assim presenças indesejadas; _ Água - em abundância, jorrando por fontes e chafarizes, iluminados à noite - promove a melhora da circulação da energia vital; _ Cores: abusar das cores nos viadutos, pontes, postes de iluminação, por toda a arquitetura e estimular a instalação de painéis em muros externos e internos das edificações.

3 - Sistemas edificados:
• Sempre ter em mente a relação do solo com os investimentos empregados;
• A proposição de novas configurações morfológicas dos sistemas edificados que incluam a revisão dos parâmetros de uso e ocupação com a finalidade de integrá-los ao tecido urbano circundante;
• Possíveis alterações em lotes ocupados por Futebol Clubes não poderão alterar as edificações e os usos já instalados;
• Poderão ser previstas demolições, novos usos e edificações, desde que mantidos os usos atualmente consolidados.
• O resultado final deve considerar a relação que se estabelece entre cheios e vazios, movimento e repouso, leve e pesado, difícil e fácil, mínimo gratuito e máximo oneroso, etc.
Para ver o Plano de Metas e Benefícios na íntegra e saber mais sobre o projeto, acesse www.ghassociados.blogspot.com. Os produtos apresentados podem variar de acordo com cada proposta específica dentro do Plano de Reconversão de Logradouros Culturais.

O G.H. Associados S/A é uma equipe de profissionais altamente qualificada, cuidadosamente selecionada para desenvolver os mais nobres interesses do Plano de Reconversão de Logradouros Culturais (PRELOC). Seu trabalho é pautado pelo Plano Geral de Metas e Benefícios, documento que sela o compromisso de sua equipe com o desenvolvimento e a qualidade de seus projetos. Após pesquisa urbana realizada pelo Grupo Hóspede, o PRELOC foi desenvolvido em 2008.

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Entrevista com o grupo HOSPEDE, p
or Gustavo Motta 

Gustavo Motta – Me parece que desde os primeiros trabalhos, lá pelos idos de 2005, o Hóspede tem em vista um diálogo com a arquitetura tomada em sua dimensão urbanística – ou seja, como modo de organização da vivência da cidade, seja em termos políticos abrangentes, seja na dimensão empírica individual ou cotidiana. O trabalho apresentado agora no Paço das Artes faz parte de um programa maior, pautado no “Plano de Metas e Benefícios”, que funciona como uma espécie de exposição irônica do jargão empresarial que normalmente está associado a esse tipo de iniciativa de “reconversão urbana”. Qual a função da arquitetura no presente trabalho? 

Grupo Hóspede - A primeira apresentação do projeto, que se deu no mesmo Paço em dezembro de 2008, trazia um projeto arquitetônico pensado pelo grupo. Era uma proposição nossa que procurava ironizar a lógica megalomaníaca da arquitetura pós-moderna. Na nova proposta, que em certo sentido segue a anterior, continuamos a trabalhar em cima dessa história do plano de reconversão. Mas, agora, sem perda da experiência anterior, já não se trata de pensar um desenho arquitetônico específico. A gente está pensando em fazer outras coisas, meio na borda disso. Não pensar na arquitetura no sentido do desenho. Mas pensar mais sobre a imposição que é feita. Pensar sobre essas escolhas que são feitas pelo capital e que são geridas pelos governos, que acabam incidindo sobre a população de um jeito muito foda. Onde ninguém sabe direito o que está acontecendo. “Opa! Demoliram!”

Nesse sentido, o trabalho tem ecos ou procura reformular abordagens que o grupo já utilizou anteriormente, como no Laboratório Hotel (2007), onde vocês formaram um centro de estudo e residência numa casa no Largo da Batata, em São Paulo. Esta área sofre atualmente um plano de reformas urbanas análogo do ponto de vista da especulação imobiliária – ainda que não em vista da função central que o campo da cultura exerce nas reconversões urbanas do centro da cidade. Esses ecos tem relação, creio, com um pensamento sobre a cidade, como lugar das relações sociais mais amplas. Ainda assim, a arquitetura se apresenta como o campo material onde essas relações estão objetivadas em construções. Neste sentido, em ausência, a arquitetura está muito presente nesta proposição dos tapumes e da criação ficcional de uma reforma, não? 

Claro que a solução apresentada agora dialoga com a arquitetura, mas sem procurar nada específico – nem suas formas – nos mecanismos internos da atividade arquitetônica. O que o trabalho vai falar de arquitetura é justamente sobre a finalidade dela. Não é o projeto – o projeto no sentido formal mesmo, desenho do arquiteto – , mas é o tapume fechando a área para construir. Um outdoor dizendo: “Obras”. 

Mas tem uma diferença entre os projetos anteriores e o que o Grupo procura buscar agora, não? No geral os trabalhos se desenvolviam a partir da ideia de site-especific – que, se não foi abandonada, está agora servindo a uma ideia central mais ampla, ou que procura abordar os problemas de forma mais geral. 

Tem um pouco essa ideia de sair da história do site-especific, mas não se resume a isso. O PRELOC procura ter uma linha mais abrangente. A partir dessa linha mais abrangente surgiu a história de ter um plano-mestre que fosse compatível com várias situações. 

E aí ocorre uma espécie de inversão: esse trabalho das reconversões coloca uma espécie de narrativa que os outros não tinham. Os outros trabalhos partiam sempre de alguma espécie de narrativa prévia, dada pelo lugar. Era a ideia “este lugar é assim, assim e assado” – e os trabalhos procuravam intervir no que estava acontecendo. Agora é o contrário: impõe-se uma narrativa maior. Parece que é uma tentativa de escapar dessa especificidade microcósmica e anedótica do lugar, da história específica, para entender como os problemas que aparecem ali funcionam sistematicamente. Inclusive porque reconsidera o problemas que tinham sido levantados antes.

Agora surge a narrativa completamente ficcional do G.H. Associados, em que o ponto de vista é do mais alto. Isso surgiu um pouco inconscientemente, naturalmente, ou a ideia partiu do princípio de se colocar como uma empresa e tentar intervir a partir disso? Intervir no sentido de acentuar os dados cômicos, acentuar o que tem de arbitrário, o que tem de bizarro e de bizonho nessas coisas. Como surgiu isso? 

Surgiu um pouco inconscientemente, mas foi se acentuando ao longo do tempo. Logo surgiu a ideia de uns outdoors, ou então panfletos, que, ao invés da criação de um lugar onde estivesse implicado o trânsito de cultura – como um centro cultural, uma biblioteca, ou um local de discussão – , houvesse uma demolição ou uma reconstrução total, que afetasse a circulação geral dos arredores, fosse em termos culturais, fosse em termos de tráfico de veículos mesmo. O Grupo pensou o que se poderia fazer para que um trabalho como os que estava desenvolvendo não virasse apenas uma denúncia de artista dentro de um espaço expositivo. Daí veio a ideia de uma marca, um logotipo, uma empresa que vem de cima e se impõe. 

De um lado dá para ver como nos outros trabalhos a narrativa estava posta pela realidade. E agora é a ficção que tem uma tentativa de sistematizar os problemas, que se referem aos problemas que o Grupo já estava tateando antes: função das reformas urbanas, realocação de populações inteiras, forma e função da arquitetura. Por outro lado, tem uma coisa com relação ao blog, a coisa da ironia, ou de sua enunciação, que parece mais clara agora em relação ao trabalho apresentado em dezembro. Ou pelo menos mais claro para quem souber o que é o Grupo Hóspede, ou estiver disposto a entender a rede de problemas que o Grupo comumente aborda de diversos modos nos diferentes trabalhos… De toda forma, o texto que está no blog agora, o G.H. Associados, se apresenta como um texto empresarial. 

“Altamente qualificado em suas qualidades.” (risos) 

O texto já começa a dar uma pista pelo exagero, pelo bizarro. Por um lado, eu acho que de fato avança naquilo de uma mudança tanto do foco da narrativa quanto do narrador. Por outro lado, continua tendo um problema de ironia no discurso, na narração que, ao mesmo tempo em que expõe a bizonhice dos problemas que o Grupo já está mapeando faz tempo, entra nela. Só que, ao mudar a voz, ela reflete ou se mistura com a ironia objetiva do fato. Em que ponto vocês acham que essa “ironia ativa”, e que em certo sentido tenta demonstrar as contradições do lugar, consegue ter voz junto a essa ironia objetiva do fato? O quanto esse discurso empresarial vai gerar um sorriso de canto de boca, mas não vai de fato à exposição das contradições da situação? 

Ah, mas há outras coisas no trabalho onde essa questão da ironia deixa de ter centralidade. Ela não é anulada, não fica de lado, mas ganha outra dimensão. Porque ao tentar pensar como as intervenções no lugar vão estar, e como elas estão submetidas a esta narrativa geral da reconversão, é possível que haja, ao mesmo tempo, um aprofundamento dessa narrativa e uma relativização dela. O que o Grupo pensou na primeira exposição, de dezembro de 2008, foi realmente trazer à vista o problema, expô-lo.Tratava-se da exposição que esses projetos normalmente têm mediante a imagem, mediante a maquete.

Essa segunda exposição procura chamar a atenção para que as pessoas vejam aquilo como se de fato o prédio fosse ser demolido. Apenas num segundo momento, pegar o folder e ler aquele plano de metas absurdo e pensar realmente: “Nossa, isso está dentro dessa lógica, de onde vem isso? Quem são essas pessoas que estão fazendo esse absurdo?”. Que é uma coisa que se deveria pensar sempre quando se vê esse tipo de projeto. Quem falou que o Largo da Batata é passível de ser totalmente destruído? De onde veio isso? Que pesquisas se fizeram para chegar a essa conclusão? Quais são os interesses ali que fazem isso ser possível? Que não fazem isso ser possível em outro lugar, porque ali é mais urgente agora? Então, pensar essa urgência em cima desses centros culturais, que muitas pessoas nem sabem que existem. Passam na frente do lugar e nem sabem que ele existe. Só vão saber que existe quando ele vai ser destruído. 

Dar visibilidade justamente pela placa de reforma, os tapumes.

Esse texto ou narrativa é importante por causa disso, mas ele é sempre um segundo momento. O texto passa a ser uma espécie de segunda camada necessária, talvez, para a apreensão completa da coisa. Mas eu não preciso saber exatamente a narrativa do Paço, saber que aquilo é um lugar... 

Aí tem um pouco da tal da ironia objetiva da situação, no texto.

Esse choque inicial é que vai propiciar uma leitura pensante do texto, onde aquele conforto vai me desconfortar. E é ele que impõe ironicamente a mudança de voz da narração. 

Uma inversão… 

Uma coisa que comentaram é que antes o Grupo usava uma abordagem mais “nós somos seus amigos, nós estamos aqui, somos seus vizinhos no laboratório, estamos pesquisando”, e agora não, estamos usando essa voz vinda de cima, e aí?
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