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Paço das Artes
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Temporada de
Projetos

Temporada 2008

Relâche

Artista convidada para a Temporada de Projetos 2008

ABERTURA
31 julho, 2008 - 19h00
VISITAÇÃO
01 de agosto a 21 setembro de 2008.
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Juliana Monachesi é jornalista e crítica de arte, repórter da SeLect, revista bimestral de cultura, e colaboradora do Canal Contemporâneo. Foi repórter e redatora dos cadernos Ilustrada e Mais!, na Folha de S.Paulo, de 1999 a 2010, e atua como crítica do programa Temporada de Projetos desde 2001.

Exposição aberta para descanso

Juliana Monachesi
Em 1924, o dadaísta Francis Picabia apresentou no Théâtre des Champs-Élysées, em Paris, um espetáculo de balé intitulado “Relâche”, que significa “descanso”. A palavra é utilizada em teatros franceses para informar que não há performance em determinada noite, quando o teatro está “fechado para descanso”. “Relâche”, obra que ficou em cartaz durante apenas 12 noites, tornou-se famosa porque foi no intervalo entre os dois atos da peça que se apresentou pela primeira vez o filme -hoje um cult do experimentalismo audiovisual- “Entr’acte”, escrito por René Clair e Picabia, com trilha sonora composta por Eric Satie. “Relâche” também dá nome a uma célebre fotografia de Marcel Duchamp, em que o artista aparece nu como Adão ao lado de Brogna Perlmutter, mulher de René Clair, como Eva, personagens que ambos interpretaram no espetáculo teatral de Picabia.

Primeiro ato. Na exposição de Renata Barros como artista convidada da Temporada de Projetos do Paço das Artes, a primeira obra pode ser vista já do lado de fora da instituição: três janelas recobertas por imagens de grades plotadas sobre os vidros. As grades são um símbolo urbano ambíguo, uma vez que servem como proteção ao mesmo tempo em que “aprisionam” os habitantes ou usuários de uma propriedade gradeada. No Paço das Artes, as grades “protegem” o local, metáfora para a fragilidade reinante entre nossas instituições culturais públicas, e também fazem dele uma prisão, de onde os visitantes podem observar a paisagem lá fora apenas através das imagens de grade; paisagem fragmentada, de difícil fruição com o anteparo emblemático de um contexto social de violência separando quem olha daquilo que deveria estar ao alcance do olhar.

Segundo ato. À direita de quem entra no espaço expositivo, uma sala fechada e escura guarda a situação de descanso proposta por Renata Barros: dois futons vermelhos convidam o espectador a se deitar e relaxar; uma videoprojeção mostra imagens aceleradas de paisagem urbana em que sobressaem muros e grades, esse emblema maior da vida em grandes cidades. Entremeadas às sequências rápidas de ruas e avenidas cercadas por todos os lados, imagens serenas de superfícies corporais são exibidas em ritmo lento, ritmo de respiração. O olhar só percebe tratarem-se de corpos se consegue desacelerar a ponto de enxergar que o fragmento de corpo capturado pela câmera respira. A artista sobrepõe imagens de sombras de grades ao close do corpo respirando, remetendo o observador às paradoxais semelhanças entre a pele do corpo e a pele da cidade, entre “dentros” e “foras” da existência em sua forma mais concreta.

Entreato. Nas paredes de fora da sala de projeção, a artista apresenta outras facetas de sua pesquisa plástica: são fotomontagens com algumas das centenas de grades, janelas, portas e detalhes de arames farpados que ela vem registrando ao longo de cinco anos; a compulsão artística de fotografar elementos urbanos que simbolizam aprisionamento e proteção pode ser conferida também na série de fotografias em preto-e-branco montadas em molduras pretas em formato de caixa nas quais o vidro (de proteção) é trabalhado como uma matriz de gravura. Nesta série de trabalhos, mais “limpos” e sintéticos, o arame farpado se torna objeto de um delicado desenho cuja sombra é projetada na imagem escura logo atrás, que também mostra um arame farpado, por exemplo; desenho e fotografia se complementam e se interrogam.

Intervalos. A transparência é tema recorrente na produção de Renata Barros. Desde os livros de lâminas de vidro, intitulados “Diário”, do final dos anos 1990, passando pelo “Caderno de Anotações”, de início dos anos 2000, feito também em lâminas de vidro incansavelmente entalhadas com desenhos e frases, até a obra processual que a artista desenvolveu no Paço das Artes durante o projeto “Ocupação” [junho-julho/ 2005], o recurso a materiais transparentes para tratar de acúmulos, memórias e atravessamentos permeia a poética da artista.

Com a presente exposição, intitulada “Relaxe”, a proposta é fazer refletir sobre as clausuras contemporâneas, mas também possibilitar um intervalo, uma fresta, um respiro. Em comum com o “Relâche” de Picabia, sua obra tem a capacidade de inverter pólos e convenções; se em dia de “fechado para descanso”, o artista francês promoveu o maior rebuliço no Théâtre des Champs-Élysées, quebrando inúmeras regras teatrais, nesta exposição “aberta para descanso”, Renata Barros convida a quebrar regras de percepção sobre a cidade, sobre o corpo e sobre tantos condicionamentos aos quais já nem prestamos atenção.

* Renata Barros foi artista convidada para a Temporada de Projetos 2008
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