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Temporada de
Projetos

Temporada 2006

O Marco Amador

Artista convidado para a Temporada de Projetos 2006

ABERTURA
06 fevereiro, 2006 - 20h00
VISITAÇÃO
06 de fevereiro a 05 de março de 2006
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Juliana Monachesi é jornalista e crítica de arte, repórter da SeLect, revista bimestral de cultura, e colaboradora do Canal Contemporâneo. Foi repórter e redatora dos cadernos Ilustrada e Mais!, na Folha de S.Paulo, de 1999 a 2010, e atua como crítica do programa Temporada de Projetos desde 2001.
Juliana Monachesi
O artista está suspenso a uns 20 centímetros do chão por quatro ganchos presos nas costas. Uma anã vestida de boneca o embala enquanto a câmera executa um lento travelling, ininterruptamente, ao redor da cena. Performance privada de Paulo Meira que aconteceu no Observatório Cultural Torre Malakoff, Recife, em 2004, a obra em vídeo alia três características essenciais do trabalho do artista: o pensamento pictórico, sobretudo em sua relação temporal, a prática que ele persegue esteticamente de promover encontros estranhos e a ideia de “corpo flutuante” como conceito artístico.

Não é coincidência o fato de os precursores da videoarte terem um lugar de destaque na história da performance art: Joseph Beuys, Nam June Paik, Wolf Vostell, Vito Acconci e Bruce Nauman fizeram uso, cada um a seu modo, do vídeo para capturar o corpo em processo, em lugar de fixá-lo em uma imagem estática, como se fora o corpo um objeto sistematizável. Na videoperformance O Marco Amador, Paulo Meira parece partilhar desta filosofia que entende o corpo como processo e como forma de pensamento. Os estudos recentes no campo das ciências cognitivas evidenciam, de fato, que o exercício de teorizar é também uma experiência corpórea.

Beuys é uma referência para Meira, tanto pela prática de ações repetitivas quanto pelo processo de transformação que parte sempre do artista, ou que se efetiva primeiro no artista - vale lembrar que a preparação de Beuys para a performance Coyote: I like America and America likes me (1974) começou na viagem de Düsseldorf para Nova York, onde a ação de uma semana ocorreu, para então se estender à coletividade, ao tecido social, tocado e implicado pela obra. Ao realizar uma “ação corporificada”, Meira recusa o pressuposto modernista de um observador “desencarnado” que vê e lê a obra unicamente de forma cerebral. Sua ação reverbera na mente e também no próprio corpo do observador.

Se a relação entre vídeo e performance parece evidentemente orgânica, aquele entre o vídeo e a pintura - sobretudo após os trabalhos já canônicos de artistas como Bill Viola e Sam Taylor-Wood, que propõem releituras de quadros ou gêneros clássicos por meio da imagem em movimento, ou ainda que se referem ao imaginário pictórico contemporâneo da pesquisa pictórica, como apontam leituras críticas recentes, como a da curadora Angélica de Moraes na exposição pintura reencarnada [Paço das Artes, 2004].

O Marco Amador tem o tempo de duração da própria suspensão - 28 minutos - e não há cortes, a não ser pelos frames de microssegundos que são disparados em algumas das vezes em que o artista realiza um gesto repetitivo que pontua toda a ação. Com uma porção de bombas do tipo “Fogos Caramuru” nos bolsos da calça, Paulo Meira “quebra a monotonia” deste excêntrico ritual, atirando-as ao chão. Cleide e ele esperam o estouro, ela apreensiva, tapando os ouvidos, ele agitando as pernas, alvoroçado, como se acabasse de ter tido um insight.

Os frames quase subliminares que entrecortam a videoperformance mostram paisagens, que não correspondem necessariamente aos insights do artista que flutua em um outro lugar, distante delas, mas são evidência clara de que existem lugares diferentes, estrangeiros, e que a ação se desenrola num espaço alheio ao da natureza. O interior azulado fica assim demarcado temporalmente (pelo ritmo das bombinhas) e espacialmente (pelo contraste com a paisagem). Este quadro em movimento encontra-se, entretanto, fixado, tanto pela presença de Cleide - cuja condição de anã, “nem criança, nem adulta”, sugere um tempo congelado - quanto pela repetição: nem começo, nem fim.

Para Paulo Meira, as imagens que surgem como flashes “são suspensões espaços-temporais, são imagens de qualquer lugar, paisagens que por frações de segundos são reconhecidas como fragmentos, recortes de uma memória instalada (tanto no sujeito da ação, quanto no observador), constantemente atualizada, sem a necessária experiência vivida nestes locais”. Ele define as paisagens, que foram escolhidas aleatoriamente no momento da edição do vídeo, como “deslocamentos imagéticos”.

Nesta video-performance, Meira promove um curto-circuito entre tempo real e tempo congelado, e coloca por terra dicotomias como natureza/cultura ou teoria/prática, que, segundo a teórica Christine Greiner - de cujo livro O Corpo (São Paulo, ed. Annablume, 2005) várias conexões foram disparadas na elaboração do presente texto - nada mais é do que uma extensão do dualismo mente-corpo. Natureza e cultura não são metaforizados no disparo de paisagens em oposição à calculada suspensão, estão ambos reunidos na experiência corporal vivida pelo artista; teoria e prática não estão dissociados nesta sua ação: as referências de Meira estão amalgamadas na materialidade da performance; mente e corpo são uma coisa só, já que o “corpo flutuante” é pensamento exposto.

Ao contrário do que pode parecer, a ação de ficar suspenso não visa uma transcendência da realidade física. A experiência da suspensão, conforme a relata o artista, faz lembrar as descrições do australiano Stelarc, que realizou diversas performances de suspensão na década de 1980 e costumava se referir ao ranger da pele no momento em que era suspenso. Esse e outros comentários de Stelarc evidenciam o sentido de experienciar o corpo de maneira mais evidente, mais presente, mais consciente. Paulo Meira, do mesmo modo, parece buscar uma desprogramação de seus reflexos e rotinas corporais para pensar melhor, não com a mente, e, sim, com o próprio corpo, do qual a mente faz parte, mas já desbancada do posto de repositório do self racionalista do modernismo.

Este corpo-processo acende as bombas e as lança ao chão quando quer, em maiores ou menores intervalos de tempo, “verbalizando” por meio deste gesto uma nova sensação a cada vez que o repete, comunicando-nos um mistério, que não se apresenta para ser decifrado, e, sim, para asseverar a dimensão prosaica e patética das nossas ações, por estranhas que sejam. O trabalho de Paulo Meira continua a sugerir conexões as mais diversas e, ainda que nos prenda a expectativa de um anúncio, de uma conclusão, há algo de indecifrável nessa e em todas as outras obras do artista. A suspensão como conceito refere-se também a suspender o juízo, deixar em suspenso, flutuante, a compreensão.

* Paulo Meira foi artista convidado para a Temporada de Projetos 2006
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