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Temporada de
Projetos

Temporada 2004

Mantenha distância

Artista convidada para a Temporada de Projetos 2004

ABERTURA
16 setembro, 2004 - 19h00
VISITAÇÃO
16 de setembro a 10 de outubro de 2004
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Roy Ascott é artista e teórico britânico de arte. Trabalha com temas da arte cibernética, redes digitais e telecomunicaçõe. É presidente do Planetary Collegium e do DeTao Master of Technoetic Arts em Xangai e editor fundador da revista Technoetic Arts. Luciano Figueiredo é artista plástico, designer e curador independente.
Roy Ascott e Luciano Figueiredo
Mantenha sua distância (nós não a queremos!)
Roy Ascott

É nossa aparente distância das coisas que nos proporciona a certeza e a ilusão de possuirmos uma identidade separada. A conectividade, por outro lado, pode embaçar essas distinções, tornando o ser mais maleável, ambíguo e indefinido. Distância é diferenciação. É também uma ferramenta de controle utilizada na interação social em toda uma gama de situações, das ruas às hierarquias da política e da religião. É só por manter a distância entre as coisas e as pessoas que o controle pode ser exercido sobre elas. Cada coisa em seu lugar e um lugar para cada coisa. Nesse sentido a distância é um imperativo categórico prescindível. Nosso desejo por sua supressão é anunciado pela ubiquidade frenética do telefone celular, assim como na arte a abrangência da tecnologia interativa testemunha uma mudança profunda de sensibilidade estética. 

Como esperar então que um grupo de obras de arte apresentado sob a advertência "Mantenha Distância" forneça a intimidade de contato entre o observador e o observado? Katia Maciel explora esse paradoxo por meio do uso criterioso da tecnologia interativa, com o objetivo de superar suas limitações poéticas e com o espírito de uma interrogação artística de suas possibilidades. Oculta nessa advertência está seu desafio estético: mantenha distância - se puder. 

Seu trabalho busca descobrir, dentro do processo cinematográfico e no gênero da interatividade, de que modo o rosto humano, por exemplo, pode ser usado como interface de comunicação capaz de atingir os processos emocionais e cognitivos de outras pessoas. Através de urna programação de elementos de vídeo bem concebida, o espectador pode participar de forma efetiva em um processo dialógico possível entre os personagens do CD-ROM. Assim, clichês e frases aparentemente inconsequentes, proferidas por cabeças falantes selecionadas ao acaso, fazem surgir, por meio da interação do observador, trocas narrativas repletas de significado e com expressão emocional. 

A ironia da advertência MANTENHA DISTÂNCIA pode ser observada quando a intenção por trás da obra de Katia Maciel é entendida de forma adequada: incluir o observador na construção do diálogo, envolvê-lo no ato mesmo da edição durante o desenrolar de urna obra. Isso proporciona um nível de imersão que está compatível com as ambições atuais da artemídia, a busca por urna imersão desimpedida em que o indivíduo de fato se encontra de ambos os lados da interface. Isso significa estar dentro da progressão de urna instalação, ao mesmo tempo em que se está do lado de fora dela, como participante do progresso do mundo cotidiano. E, por mais que possamos concordar com Mark Twain quando ele diz "a distância confere encantamento à vista", não podemos duvidar que na nova tradição de arte interativa, para a qual Katia Maciel faz urna contribuição importante, a imersão nos permite observar o encanto da proximidade. Corno Twain, sabemos que as distâncias podem enganar, ou melhor, que distanciar é enganar. Todo caminhoneiro sabe que objetos vistos pelo retrovisor estão mais próximos do que pensamos. 

Na verdade, o que está em jogo aqui é a intimidade. Reconhecida até mesmo nas trocas clichês entre amigos ou estranhos, na repetição de frases gastas, na reiteração de imagens familiares ou na observação a partir de pontos de vista conhecidos, não se pode negar a INTIMIDADE dos relacionamentos. É ali, no contexto de urna livre troca entre observador e aquilo que é visto, que podemos celebrar, assim corno reavaliamos, o que nos é familiar. E é também a reciprocidade da distância e dos ambientes fechados, do tempo e do instante - questões que perpassam a visão de Katia Maciel - que nos levam a um novo entendimento da noção do Eterno Retorno, para o qual o ciclo em LOOP de imagens serve corno metáfora. O LOOP, uma artimanha pós-moderna derivada exatamente da tecnologia cinematográfica e eletrônica, ecoa essa metáfora pré-moderna, até mesmo arcaica, do Oroborus. Assim corno a mítica serpente come a si mesma ao comer, o sistema (que incorpora o observador em resposta a sua proximidade) vê a si mesmo ao ver. 

Por fim, entendemos que o paradoxo PROXIMIDADE DA DISTÂNCIA pode significar intimidade, mesmo que apenas corno um exemplo da "experiência de absurdo nas relações amorosas", nas palavras de Katia. O absurdo abarca tudo que seja não causal, aleatório, acaso. A distância evita o impacto enquanto, paradoxalmente, o envolvimento próximo envolve o impacto, ou seja, o impacto físico da presença do observador no espaço de urna instalação. A traseira do caminhão, nesta exposição, é um potente lembrete de nossa compreensão efêmera da realidade. Não podemos ultrapassar acontecimentos, mas também não podemos de fato nos distanciar deles. A arte clássica buscou estabelecer a autonomia do mundo, visto como algo que existe fora de nós, à distância. A harmonia, pensava-se, residia na objetificação do nosso entorno e no isolamento do mundo na apreensão do espaço da perspectiva. Katia Maciel nos mostra que a arte pode destruir a distância ao agir no espaço interativo, oferecendo canais de experiência nos quais o observador torna-se uma parte integrante da maneira como as coisas acontecem. 

Assim, a interação torna-se êxtase, uma elevação dos sentidos, em que o espaço não tem leis, da maneira que talvez seja permitida somente pela transformação digital. É dentro desse novo tipo de espaço e tempo que Katia Maciel celebra o fato de se recusar a manter distância.

Múltiplos cinemas
Luciano Figueiredo

"O cinema representa a sétima arte: é no mínimo o que afirma uma célebre frase do início do século XX. Mas o cinema muda a olhos vistos. Sua história e também sua geografia são tortuosas após 20 ou 30 anos. A arte também muda, e o que os museus apresentam atualmente não tem muita coisa em comum com o que as galerias de vanguarda propunham no início do século XX. Assim sendo, a questão continua a ser colocada regularmente, e continuamos comparando o cinema às artes já mais ou menos estabeleci das e querendo demonstrar agora e sempre que ele faz parte do conjunto das artes". Jacques Aumont, Le Septième Art, 2003. 

Katia Maciel define o conjunto de trabalhos que ora apresenta como TRANSCINEMA. Esta definição nos parece bastante exata para diferenciar e situar as proposições de câmera, imagem e projeção dentro da renovada problemática que a própria história do cinema nos oferece desde os seus primórdios, ou seja, o questionamento que se faz, desde o seu nascimento, sobre a natureza do cinema e o seu papel como arte e linguagem visual. 

Realizadora de filmes, audiovisuais, vídeos, pesquisas e publicações sobre arte brasileira, teoria e estética do cinema, Katia Maciel chega a sua realização mais complexa ao estender sua experiência com a visualidade multimídia a uma situação-limite de uma ideia de "do campo como limite do plano fílmico que está sendo redefinida pelo surgimento de novas camadas tecnológicas" ou, ainda, o que chama de CINEMA-INSTALAÇÃO. 

Acreditamos, portanto, que o envolvimento de Katia Maciel com obras e vertentes experimentais da arte brasileira - como as do Neoconcretismo, Hélio Oiticica, Cildo Meireles e Artur Barrio - tenha contribuído substancialmente para a configuração conceitual e formal dos trabalhos que compõem esta sua proposta de TRANSCINEMA: a questão da participação do espectador, o caráter ambiental na obra de arte, as instalações e a interatividade possibilitada pelas novas tecnologias. Assim, temos a evidência da atuação de conceitos oriundos diretamente do fenômeno da transformação da pintura (vanguardas do século XX) e que esses representam simbolicamente a passagem da arte moderna para a sua condição contemporânea. 

De maneira análoga, podemos nos remeter às realizações do chamado CINEMA ESTRUTURAL das décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos, Inglaterra e Europa, quando cineastas como Hollis Frampton, Michael Snow, Peter Gidal, Malcom LeGrice, Paul Sharits, Carolee Schnemann, Jonas Mekas, e muitos outros, experimentavam novas possibilidades de realização e definição de valores fílmicos, apoiando-se fortemente em questões e conflitos da pintura e escultura: as estéticas do ABSTRACIONISMO EXPRESSIONISTA e do MINIMALISMO, ou seja, pontos críticos das vanguardas ao final do Modernismo - o drama da busca pela definição da essência, daquilo que se queria definir como especificidades da pintura e da escultura transladado para as problemáticas do cinema, como a desconstrução da ideia de narrativa, tempo fílmico, etc. 

A ideia de TRANSCINEMA não parece querer negar conceitos fílmicos ou fazer oposição às experiências anteriores. Usa livremente, como já dissemos, várias vertentes experimentais aliadas às novas tecnologias, para simplesmente propor e explorar novas possibilidades de resolução para a imagem e também reorganizar o ESPETÁCULO-CINEMA. 

Um dos seus mais recentes trabalhos em arte eletrônica chama-se UM, NENHUM E CEM MIL, realizado em Londres. É uma obra ficcional oferecida ao espectador participante por meio de jogo lúdico de permutações randômicas e virtuais, que é parte da pesquisa que realizou sobre o tema do retrato na história da pintura. UM, NENHUM E CEM MIL proporciona ao expectador combinações quase infinitas de imagens e diálogos extraídos do lugar-comum das expressões verbais da vida cotidiana e que, em justaposições aleatórias, provocam eficazmente espanto e renovação no universo de valores estratificados do real. 

É quase inevitável não relacionar os resultados de processos criativos como os do TRANSCINEMA de Katia Maciel a temas decorrentes e recorrentes da tradição fecunda do Modernismo, tais como os fundamentos poéticos de Ezra Pound, James Joyce, T.S.Eliot e Gertrude Stein; o cinema de Eisenstein, de Alfred Hitchcock, o CINEMA ESTRUTURAL e a iconografia seriada da Pop Art e os postulados de Marshall McLuhan sobre a transição fenomenal do arquétipo ao clichê. É evidente neste conjunto de trabalhos uma relação fértil com a tradição da arte ao lado de uma atualização permanente na expressividade contemporânea. 

* Katia Maciel foi artista convidada para a Temporada de Projetos 2004

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