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Temporada de
Projetos

Temporada 2002

Sala de espera

Artista convidada para a Temporada de Projetos de 2002

ABERTURA
06 julho, 2002 - 13h00
VISITAÇÃO
07 de julho a 04 de agosto de 2002
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
François Quintin é crítico de arte e foi diretor do Fonds régional d’art contemporain de Champagne-Ardenne [Fundo Regional de Arte Contemporânea de Champagne-Ardenne] na região de Reims/França e Céline Picaud é crítica independente.
François Quintin e Céline Picaud
Sala de espera 
François Quintin 

De rara qualidade cromática, as imagens de Janaina Tschäpe se confundem com a fineza e melancolia da pintura e da fotografia victorianas, o cinema neo-realista e os modos fragmentados de expressão contemporânea do vídeo e da fotografia. Suas imagens são produto direto da imaginação. A intensidade ficcional de suas obras e sua força narrativa contrastam com a simplicidade dos meios utilizados em suas encenações: décors naturais e acessórios realizados pela artista a partir de materiais modestos. Essa artista de vidas múltiplas identifica suas próprias crenças e fantasmas com os personagens que ela mesma modela em suas metamorfoses. Janaina Tschäpe sempre leva consigo seu vestido de sereia ou suas asas de anjo e persegue suas vidas paralelas por meio da décor das luzes e de lugares que a conduzem. A artista afirma antes de tudo o poder criador que lhe permite, em todos os lugares, vislumbrar vidas simultâneas às metamorfoses que divagam sob a forma de figuras essenciais do íntimo.

A eternidade de uma vida fragmentada 
Céline Picaud

A única paixão hoje: a paixão por uma multiplicidade de vidas simultâneas, pela metamorfose e anamorfose dos modos de vida, dos lugares, das maneiras de amar. A capacidade de passar de uma vida para outra e de não morrer em uma única vida — é isso que dá ritmo a tudo. Jean Baudrillard

A metamorfose é o ponto central dos trabalhos de vídeo de Janaina Tschäpe. Assim, a ação dos elementos se dá à distância, influindo, porém, no desenvolvimento da mulher. O vídeo Sala de Espera (2001) é a realização paroxística do contato com elementos cosmológicos, alternativamente chamados de forças da natureza. A faculdade de metamorfosear-se, como que fazendo a existência ritmar de acordo com seu próprio ritmo. Muitas vezes o corpo da mulher se encontra em coerência com os elementos naturais: sua respiração evolui no mesmo ritmo do vento, seu vestido se levanta ao sabor das correntes de ar. Assim, múltiplos elementos servem de elos entre as sequências, a chuva, o vento, as aves, o bosque. O que mais surpreende é o barulho do temporal, pois é o fenômeno que concentra as forças primitivas: a água, o fogo, o ar... formando a trilha sonora que permeia as sequências. A partir desse elo atemporal, o ritmo dos vídeos (3 vezes 8 sequências de 1 minuto) sofre uma ruptura em sua proporcionalidade. São, portanto, as forças cósmicas que, ao entrar em ação, tornam-se o fundamento rítmico das diversas transformações. A atitude autística da protagonista, os movimentos repetitivos de vaivém reforçam essa ideia de uma espera que poderia encontrar uma resposta na intervenção de elementos externos. Do ritmo do macrocosmo surge a metamorfose interna da criação do eu, o cosmos escande o porvir do homem.

A partir do romantismo alemão e da fé numa vida desmultiplicável Janaina Tschäpe torna-se o modelo plástico que dá sustentação a suas imaginações. Ela eleva criaturas quiméricas à posição de criaturas vivas, e eleva a si mesma à eternidade. Goethe praticou essas intervenções mitológicas, em que, na maior parte do tempo, as criaturas se encontram entre dois mundos, pertencendo ao mundo celestial eterno, porém, aparecendo no reino dos vivos. De fato, são essas criaturas que provêm o dom da ubiquidade, da eternidade ou da onisciência. A artista participa dessa ambiguidade e se metamorfoseia, conforme o lugar, nessas criaturas cujo “invólucro plástico” ela fabrica. Seu corpo se dota então de características sobrenaturais, e é mais especificamente aí que a artista revela uma força de apreensão das cores e da luz que passa por um trabalho de refinamento e esse domínio técnico está a serviço do caráter híbrido de seus personagens.

Pode-se pensar que se está diante de um trabalho mórbido devido a um imaginário fúnebre que declina os sonhos fantásticos de morte e vida. Um trabalho que sobrevoa a própria vida. Contudo, o que está em jogo é o inverso. Aprecia-se a intensidade da vida a partir da consciência da morte que permite a distância necessária para a atuação do imaginário. Do trabalho da metamorfose, seria necessário guardar que o homem está em processo de evolução, assim como o universo. E é pelo próprio fato de estar à escuta das forças vitais do universo que Janaina Tschäpe encontra seu fundamento nelas. Seu trabalho não é uma oração fúnebre, mas sim um canto de louvor à própria essência do que está vivo e que passa, portanto, pela recusa de uma vida única dentro de um invólucro mortal e imutável.

Janaina Tschäpe foi artista convidada para a Temporada de Projetos 2002
REALIZAÇÃO

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