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Temporada de
Projetos

Temporada 2000

Análise do conteúdo estomacal de Fábio Carvalho

ABERTURA
19 setembro, 2000 - 20h00
VISITAÇÃO
19 de setembro a 08 de outubro de 2000
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Carla Zaccagnini é artista plástica e mestre em poéticas visuais pela ECA-USP.
Carla Zaccagnini
Suponhamos um mundo, ou um pedaço de mundo, que fosse só terra e água, em que víssemos os lagos inertes, os rios que correm seguidos por mais de si mesmos e o mar, que vem e volta e volta a vir. E às plantas e aos bichos só os conhecêssemos dentro de latas ou pacotes herméticos. Ainda assim, saberíamos que o tempo passa olhando as horas nos relógios - sempre que os intervalos entre uma observação e a próxima durassem mais que um segundo e menos que vinte e quatro horas (ou doze, para quem usa certo tipo de relógio digital). 

Digamos que, ainda nessa terra, fosse uma noite eterna - ou perpétua - e sem astros. E que só se conhecesse o mecanismo do relógio digital (desse certo tipo). De tanto olhar acenderem-se e apagarem-se os segundos, o pulsar dos números adequaria o batimento cardíaco, e terminaria por retardar a fome, o tédio e o envelhecimento (e talvez adotássemos o sistema duodecimal). E se cada um de nós elegesse uma combinação de números, como costuma ocorrer-nos por algum tipo de condicionamento supersticioso (e eu dormisse às 3:33 e acordasse às 3:33, e, de qualquer lugar e sempre, só olhasse os números luminosos quando fossem 3:33), os momentos seriam o mesmo e o tempo, condenado, deixaria de passar. 

Se, por outra parte ou em outra parte, todos os relógios fossem de pulso e de corda, e só tivessem um único preciso ponteiro num mostrador repleto de demarcações. E se todo mostrador girasse (à velocidade do ponteiro e no sentido horário), teríamos sempre a mesma hora, cada um de nós. Talvez a hora que tinha o relojoeiro de quem cada padrinho comprou cada primeiro instrumento. Talvez a hora do padrinho. As horas seriam hereditárias, de uma herança com escolha: como os nomes. E conviveriam nessa parte desse mundo, tantos tempos quantos nomes. E aos homônimos somar-se-iam os homócronos, que compartilhariam o mesmo meio dia/meia noite (ou as mesmas três e meia) para sempre. 

Se, num momento que até então seria (ou talvez fosse) o mesmo, deixássemos ou deixasse alguém de dar corda ao relógio. E se todos os relógios terminassem por deter seu movimento sem destino e seu tique-taque onipresente. E pudesse a pulsação ser a do sangue e a identidade a do nome. E o tempo ser o do corpo, da fome, do sono, do tédio. Herdar-se-iam os hábitos. Os filhos ou afilhados de quem almoça e janta teriam fome para esses momentos, os de quem jejua às sextas só sentiriam sede de 
água, de tempos em tempos. E somente aqueles que compartilhassem hábitos poderiam referir-se à mesma medida de tempo, e ver-se entre-as-comidas ou marcar um encontro para o próximo período-a-água. 

E os hábitos - fadados como estão à permanência - repetir-se-iam quase inalterados, seguidos por mais de si mesmos, com as suaves variações que comportam. Hoje uma fatia de pão, amanhã duas, depois de amanhã torradas (que o pão já é velho); hoje café puro, amanhã também, depois de amanhã com pouco leite (em pó, que o pó dura muito). A repetição certeira dos hábitos acabaria por engrenar a validade das coisas e a neces
sidade humana. E teríamos sempre tanto leite quanto fôssemos querer tomar antes de que se pusesse a esverdear e umedecer. E o tempo, domado, deixaria de passar; porque de nada nos serve que seja amanhã se o dia for igual a hoje ou a ontem ou ao 4 de abril de 1995. 
REALIZAÇÃO

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