Em maio, o Paço das Artes inaugura um novo espaço para
projeções e exibições de vídeo, o Paço
para Ver. A estreia da sala acontece no dia 07 de maio, segunda-feira, a
partir das 19h30. O evento é gratuito e aberto ao público. Simultaneamente,
estará acontecendo a abertura das 2ª e 3ª edições da Temporada de Projetos.
A pesquisadora e professora da ECA/USP Patrícia Moran foi
convidada para fazer a curadoria de Imagem-performance:
entre a figuração e a sugestão, que marca a inauguração da sala. A mostra é
composta por vídeos feitos como registro de performances concebidas para serem
projetadas ao vivo. Estes vídeos são documentos que recuperam instigante
discussão sobre se criar uma memória de trabalhos cujo ponto de partida é a
presença do realizador e do público no momento da apresentação.
Leia abaixo os textos curatoriais de Patrícia de Moran.
Imagem-performance: entre a figuração e a
sugestão
Os vídeos selecionados aconteceram como registro de performances
concebidas para serem projetadas ao vivo. Trazemos estes vídeos-documentos, que
recuperam instigante discussão sobre se criar uma memória de trabalhos, cujo ponto
de partida é a presença do realizador e do público no momento da apresentação.
Como bem coloca Ana Carvalho, pesquisadora sobre a documentação destas poéticas,
a performance audiovisual, “define-se por sua singularidade como manifestação
artística, pois o momento em que se dá não pode ser substituído pela
documentação”. Então porque apresentar a memória destes eventos como objetos de
trabalho em si?
Duas motivações nos conduziram a esta escolha. A primeira refere-se ao interesse
de expor a diversidade e riqueza poética de performances que aconteceram em
locais e condições distintas. Por ora, não teríamos outro recurso para
trazê-las ao público aqui presente. Se elas perdem a singularidade do encontro,
pois são um registro, se elas têm um ritmo definido a priori em função do
público e espaço original, trazem a quem nunca as viu as marcas de terem sido
realizadas em tempo real. Os erros e escolhas circunstanciais, a presença do
público, e o próprio ritmo da imagem impresso nas imagens se referem a um
momento único. Algumas destas performances foram apresentadas poucas vezes,
outras nunca chegaram ao Brasil – assim, a possibilidade de ampliar-se o
público destes trabalhos pouco vistos é uma oportunidade para organizar
repertórios audiovisuais produzidos em culturas e condições materiais bastante
diversificadas.
A outra justificativa para se utilizar a documentação como material
expositivo relaciona-se a um traço poético que atravessa os trabalhos. Eles
fazem da imagem especular matéria para a produção de intensidades
diversificadas e, com este recurso, deslocar um suposto e potencial sentido ali
presente. As imagens gráficas por sua vez, tendem a sugerir através do seu
movimento e forma acontecimentos do mundo material. Sendo assim, estamos em uma
rua de mão dupla, onde a abstração tende à sugestão e a figuração produz
movimento contrário.
Esta documentação visa em última instância compor um painel de trabalhos
úteis a futuros pesquisadores e amantes de experimentações audiovisuais.
Performers em single channel
O vídeo single channel morreu,
vida longa a ele. Estes vídeos têm em comum terem sido criados por realizadores
que priorizaram nos últimos anos a realização de performances audiovisuais ao
vivo. As narrativas e videoclipes selecionados são emblemáticos por trazerem
marcas da poética das performances, de recursos técnicos consolidados nas
performances que migram para outras formas expositivas. É evidente a
diversidade de estratégias expressivas, ou seja, as peças aqui apresentadas
extrapolam as proposições das performances, mas podemos pensar que renovam o
vídeo ao colarem seus princípios à imagem, à sua modificação como ponto de
partida. É da imagem que surgem
conceitos e intensidades. A imagem na variedade de tempos, formas e texturas
advindas da sua manipulação, ao trazer sucessivas situações faz de si
acontecimento. Não busca falas para dizer, mas mostra situações. Assim, estamos
diante de duas estratégias, da imagem auto-centrada produzindo intensidades e
da imagem espetacular que nos oferece tempo para varrer sua superfície e reconhecer
situações.
Patrícia Moran é professora da ECA/USP, diretora de trabalhos
audiovisuais e pesquisadora. A curadoria de Imagem-performance: entre a figuração sugestão foi desenvolvida com o apoio da FAPESP. |