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Ensaio

Relato da Mesa- Modos de produção em arte: estéticas, des-estéticas, arte e sociedade

POR
Marcia Ferran
Os integrantes da mesa “Modos de produção em arte: estéticas, des-estéticas, arte e sociedade” desenvolveram, cada qual num aporte singular, os desdobramentos propostos pelo Simpósio, que não eram automaticamente óbvios, tendo como tema mutualismos, agenciamentos, estéticas e ações compartilhadas, ativismo, movimentos anti-globalizantes e finalmente, o social na arte.
O tom da mesa foi bem instaurado pela crítica e curadora Priscila Arantes, para quem há um atual estreitamento entre arte e sociedade, uma postura mais crítica em relação ao sistema hegemônico da arte imposto pela exacerbação da lógica capitalista. Seria neste contexto que novas práticas colaborativas e de compartilhamento vem emergindo, colando em xeque as teorias estéticas de base Kantiana e atualizando o tipo de discussão cujos marcos maiores no Brasil talvez ainda sejam o livro de Aracy Amaral e a obra de Hélio Oiticica.
É justamente a Hélio Oiticica, que a primeira palestrante, Gabriela Salgado, curadora da Tate Modern, especialista em arte latino-americana, se refere para situar os recorrentes episódios de estranhamento das instituições artísticas quando deparadas com propostas que trazem públicos não especializados que, via-de-regra, são eles mesmos representantes de identidades culturais fortes, à margem do sistema capitalista em vários níveis, como eram os integrantes da Mangueira na famosa expulsão do MAM do Rio de Janeiro nos anos 70.
Para chegar a este ponto a curadora da Tate Modern partiu do projeto recente de Humberto Vélez, The Fight, cuja premissa foi tornar a nobre instituição britânica permeável aos seus vizinhos imediatos, ou seja comunidades carentes que resistem aos famosos processos de gentrification, típicos de bairros centrais, no caso, a área da margem sul do rio Tamisa, conhecida como South London. Desta premissa o artista panamenho planejou um projeto envolvendo e literalmente pondo em cena, como protagonistas as manifestações culturais existentes nas comunidades vizinhas ao Tate. Gabriela levantou inúmeras facetas do projeto que faziam eco ao universo cultural de origem do próprio artista: o papel econômico das vias fluviais no Panamá, as questões de imigração. Assim como as experiências de Walter Riedweg, Humberto Vélez, segundo Gabriela possui já uma certa “metodologia” de trabalho participativo, tema que aliás ficou excessivamente misturado ao de prática relacional, deixando em aberto confusões com estética relacional, noção bastante recente muito mais calcada numa sociologia da recepção ou ainda, da multidão, nos termos do filósofo Antonio Negri, do que numa postura deliberada e política do artista como a de Hélio Oiticica. Gabriela remeteu também à influência iniciada por Joseph Beuys cuja ênfase na criatividade humana era a força fundamental para a mudança.
Outra faceta levantada por Gabriela girou em torno da crítica que considera os trabalhos do gênero do The Fight, e outros trabalhos participativos e engajados como excessivamente nostálgicos, aspecto que foi insuficientemente aprofundado no debate. Quando questionada por Patrícia Canetti, Gabriela circunscreveu a crítica a um certo “recorte europeu”, não havendo outros teria parâmetros históricos semelhantes para abordar o tema.

Marcio Botner, o segundo palestrante, iniciou sua fala esclarecendo que não se considera um curador mas sim um galerista, sócio-fundador da galeria A Gentil Carioca, cuja gestão se dá por decisões compartilhadas entre ele e os artistas Laura Lima e Ernesto Neto. Após contextualizar o “cenário de urgência” do meio artístico carioca que teria impulsionado os três amigos a partirem para um projeto conjunto, o artista apresentou um vídeo com depoimentos e testemunhos acerca do percurso da galeria desde 2003. Dentre os testemunhos no vídeo, personagens diversos – desde um senhor sem-teto que “praticou” (para empregar um termo caro à Michel de Certeau defensor de um urbanismo voltado à apropriação coletiva cotidiana) a instalação “Cidade-dormitório” de Guga Ferraz, até artistas como Tatiana Grimberg e Ricardo Basbaum.
Botner centrou sua fala mais no modo peculiar de agenciamento da galeria e nas relações complexas que desperta na vizinhança, por estar inserida no centro da cidade do Rio de Janeiro. Dentre as escolhas da Gentil Carioca, Botner sublinhou as interfaces propostas entre educação, arte, gentileza, além de lançar ao público do Simpósio, sua concepção da arte como uma “bomba cultural”, termo que gerou certa polêmica para os debates posteriores.
Walter Riedweg apresentou com imagens projetos realizados com Maurício Dias, Throw em Helsinque, Sugar Seekers em Liverpool e, ainda um na Noruega. O artista enfatizou que as questões políticas que perpassam seus trabalhos suscitam para eles fundamentalmente o processo de encontro com o outro, e que é o território interior, que mais interessa suas abordagens, mesmo quando, como em Sugar Seekers, as pessoas enfocadas tenham uma relação grave com os territórios para onde imigraram. Walter mostra como desloca o problema do “exótico” ao privilegiar o mundo dos sentimentos, do processo de encontro com o outro, sem pretender anular os conflitos inerentes. O artista de certa forma reforça a fala presente no documentário Mau Wal – encontros traduzidos – sobre o percurso da dupla Maurício & Walter , de que “apresentam histórias e não fatos”.

No debate Miguel Chaia, tomou como ponto de partida as relações entre arte sociedade e entre arte e política que os projetos apresentados reinventavam. Lembrou que a crise social que permeia estas relações já era abordada por Rousseau e sublinhou que é preciso pensar nas heterotopias abertas hoje, quando o artista pode virar educador, repórter...

De modo geral a mesa propiciou um rebatimento da mesa anterior, problematizando com exemplos concretos a fala de Roger Buergel que havia sugerido que novas atuações e mesmo novas incursões profissionais por artistas poderiam ser um caminho para abranger novas platéias para arte contemporânea, incorporando questões do mundo “fora dos museus”. Por outro lado, a mesa não contemplou a questão das políticas culturais incidindo sobre as estratégias artísticas atuais, elemento que só foi levantado pelas perguntas de Juliana Monachesi e por um artista na platéia. Neste sentido a fala de Walter Riedweg foi a que mais assumiu, aliás desde o início, que lidar com aquilo que é chamado pelos antropólogos de “campo”, lidar com o “outro que começa onde acaba a minha pele” requer intrinsecamente lidar com conflitos.
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