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Urbi et Orbi

Para a cidade e para o mundo

ABERTURA
25 janeiro, 2010 - 19h00
VISITAÇÃO
26 de janeiro a 03 de abril de 2010
CURADORIA
Curadoria de Hugo Fortes e e assistência de Síssi Fonseca
ARTISTAS PARTICIPANTES
Andreas Haus, Antje Engelmann, Carola Schmidt, Cyrill Lachauer, Hugo Fortes, Lina Kim, Marit Lindberg, Martyna Starosta, Rabi Georges, Rachel Rosalen, Rivane Neuenschwander, Silvia Marzall, Síssi Fonseca, Ulf Aminde, Wagner Morales

Urbi et Orbi - Para a cidade e para o mundo

Hugo Fortes
A simples descrição biográfica dos artistas e os trajetos percorridos para a realização de seus trabalhos tornam claras as questões enfocadas pela exposição Urbi et Orbi. Aqui se propõe uma discussão a respeito dos trânsitos físicos e simbólicos presentes na paisagem urbana mundial contemporânea. A expressão latina Urbi et Orbi, que em seu sentido original significa “para a cidade e para o mundo”, ou seja, em todos os lugares, é retomada aqui para descrever os processos de deslocamento dos indivíduos no ambiente globalizado e transnacional da atualidade, as conseqüências do confrontamento entre o local e o global, bem como a dissolução de fronteiras espaciais e temporais na metrópole contemporânea.

Enquanto ao longo do século XX a metrópole tornou-se o pólo central de atração populacional e cultural, no início do século XXI ela ganhou contornos menos nítidos, conectando-se rizomaticamente a outras metrópoles através da intensificação dos deslocamentos reais e virtuais de seus indivíduos e da dissolução de sua identidade local original. O advento da globalização, o desenvolvimento dos meios de transportes, os fluxos migratórios decorrentes de guerras étnicas e desigualdades sociais e o aumento do contato entre indivíduos através da internet e dos meios eletrônicos de comunicação – todos estes processos geraram o surgimento de uma geografia líquida e incerta na qual o artista contemporâneo transita e atua.

Cada vez mais artistas contemporâneos desenvolvem suas poéticas a partir de viagens e residências internacionais, que lhes conferem novas visões de mundo e possibilidades de expansão criativa. Por atuar muitas vezes em um certo gueto cultural, que não faz parte do interesse da maior parte da população, o artista contemporâneo sente-se às vezes estrangeiro em seu próprio país, relacionando-se melhor com indivíduos de outras terras do que com seus próprios vizinhos. É este olhar estrangeiro em constante mobilidade, que enxerga o outro com curiosidade e espanto, captando as atmosferas poéticas dos lugares e os confrontamentos sociais decorrentes dos deslocamentos que a exposição Urbi et Orbi pretende iluminar.

Um dos artistas chave da exposição é o húngaro Moholy-Nagy, atuante como professor da Bauhaus nas primeiras décadas do século XX. Moholy-Nagy viveu em Berlim, Amsterdam, Londres e Nova York, tornando-se um símbolo do artista multimídia em trânsito, em uma época em que os deslocamentos geográficos ainda não eram tão acessíveis. Entre 1925 e 1926, Moholy-Nagy desenvolve um roteiro visual para um filme chamado Dynamik der Großtadt (Dinâmica da Metrópole), o qual ele mesmo nunca chegou a filmar. A partir do estudo deste roteiro, um grupo de pesquisa da Universität der Künste Berlin coordenado pelo Prof. Dr. Andreas Haus realiza a produção deste filme, procurando ser fiel às indicações de Moholy-Nagy, porém adaptando-o para a contemporaneidade.

Se no filme imaginado por Moholy-Nagy a metrópole já aparece como ponto de atração e local de convivência dos mais diferentes grupos sociais e ideologias, em alguns filmes dos artistas atuais apresentados em Urbi et Orbi esta convivência é por vezes vivida como conflito e confusão identitária. No vídeo Weiter, de Ulf Aminde, por exemplo, vemos punks disputando anarquicamente um local para sentar em uma dança das cadeiras encenada em frente a uma construção em ruínas. Indíviduos à margem da sociedade, muitas vezes estrangeiros ou estranhos em seu próprio país, os punks disputam um lugar ao sol em uma cidade bastante distante das utopias modernas.

O mesmo tom crítico se apresenta nos trabalhos de Martyna Starosta e Rabi Georges. Para a polonesa Martyna Starosta a ascensão capitalista em toda a Europa e em especial em Berlim, após a queda do Muro, é vivida como conflito, que a artista pretende eliminar através de sua performance em que propõe ironicamente incendiar shoppings centers, lojas de departamento e grandes cadeias de fast-food. Uma atitude iconoclasta semelhante pode ser vista no trabalho de Rabi Georges, no qual ele desafia símbolos da cultura ocidental urbana estabelecida, ao insinuar relações sexuais com monumentos e estátuas públicas.

Já o peso de uma identidade cultural carregada de acontecimentos históricos e traumáticos é tematizado pelo trabalho da austríaca Carola Schmidt. Filmando em um porão histórico de um teatro em Berlim, a artista convida artistas de diversas nacionalidades para realizarem performances que tratam de opressão e destruição psicológica. O resultado é um poético trabalho, impregnado com uma atmosfera densa e perturbadora. Ao acertar contas com a história local através da colaboração de artistas estrangeiros, a artista borra as fronteiras geográficas e temporais.

A imagem idealizada de uma cultura e o contraste com a sua percepção atual in loco é tematizado pelos trabalhos de Wagner Morales e da dupla Rachel Rosalen e Marit Lindberg. Ambos os trabalhos foram produzidos em residências internacionais. Enquanto Morales estranha as maneiras francesas que não correspondem ao nosso imaginário idealizado, a brasileira Rachel Rosalen e a sueca Marit Lindberg observam diferentes facetas de um Japão que vai além dos estereótipos esperados. A desconstrução de estereótipos é também a estratégia do casal alemão Antje Engelmann e Cyrill Lachauer. Apesar de seu tipo físico germânico, os artistas incorporam os trejeitos e figurinos latino-americanos dançando uma música caliente na selva colombiana.

A dissolução das fronteiras de nacionalidade e a intensificação dos fluxos permanentes destacam-se a partir de metáforas sutis nos trabalhos de Lina Kim e Silvia Marzall. Ambas as artistas, embora brasileiras, possuem biografia multicultural. No trabalho de Lina Kim é o fluxo de uma rua na Índia que é metaforicamente invocado para falar de fluidez. Já na videoinstalação de Silvia Marzall, o fluxo é assinalado através do vaivém de balanços que nunca se fixam.

Onde é mesmo nossa casa? Esta é uma pergunta que os artistas Cao Guimarães e Rivanne Neuenschwander se fazem em seu vídeo Volta ao Mundo em Algumas Páginas. Os artistas propõem ao observador a descoberta de mundos através de mapas inseridos aleatoriamente entre livros. O trânsito livre pelo mundo e a busca por mapas para se perder e para se encontrar é também objeto da performance realizada por Síssi Fonseca. Munida de imensos mapas caóticos, criados a partir do GoogleMaps, a artista circula entre os espectadores como uma flaneur contemporânea que quer agarrar o mundo em seus trajetos desencontrados.

Neste trânsito irrefreável em que nos encontramos, há espaço também para o artista-curador que aqui vos fala e transita entre estas duas atividades. No trabalho que apresento em Urbi et Orbi, observo os outros por trás da vidraça em uma cidade fluida que derrete lentamente como a neve. No fluxo inefável do tempo, indivíduos encontram-se e se despedem nas ruas das metrópoles, deixando em nossas memórias o calor de sua presença. É no encontro com o outro que me aqueço e é pelo seu olhar que me alimento.

Artistas e Obras

ANDREAS HAUS
Dinâmica da metrópole – um experimento cinematográfico a partir de L. Moholy Nagy / Dynamik der Großstadt, ein filmisches Experiment nach L. Moholy-Nagy

Universität der Künste Berlin: Andreas Haus, Walter Lenertz e grupo (Alemanha); Roteiro original de László Moholy-Nagy; Videoinstalação com três canais; Alemanha, 2005-06, 14 min.
A partir de um projeto original de 1921-22 do artista László Moholy-Nagy, o grupo de pesquisa da Universität der Künste Berlin (Universidade das Artes de Berlim) realizou entre 2005 e 2006 uma versão atual do filme Dinâmica da Metrópole, que nunca chegou a ser filmado pelo próprio Moholy-Nagy. Com estética embasada no Construtivismo, no Dadaísmo e no Futurismo, o filme retrata as energias formais e emocionais da grande cidade em movimento. A figura de Moholy-Nagy é emblemática na exposição, já que se trata de um dos artistas de grande trânsito internacional no início do século 20, tendo nascido na Hungria e vivido principalmente na Alemanha e nos Estados Unidos. Seu fascínio pelo movimento e pela metrópole e sua busca de um olhar inovador podem ser vistos neste filme.

ANTJE ENGELMANN & CYRILL LACHAUER
Um filme colonial / Ein Kolonialfilm

Vídeo. Alemanha, 2008, 5 min.
Em um ambiente rural na Colômbia, um casal se encontra para uma dança entre a fantasia e a realidade. Incorporando os estereótipos de sul-americanos, o casal de artistas alemães assume uma nova identidade em uma narrativa aberta, levando o espectador a questionar a representação dos papéis sociais e sexuais, suas relações de poder e dominação e as aparências. Procurando colonizar um ao outro, ao mesmo tempo em que são colonizados pela cultura latino-americana, dois europeus discutem ironicamente suas identidades.

CAO GUIMARÃES & RIVANE NEUENSCHWANDER
Volta ao mundo em algumas páginas

Vídeo. Brasil/Suécia, 2002, 15 min.
O vídeo mostra uma ação realizada pelos artistas em uma biblioteca de Estocolmo, na Suécia. Os artistas inserem pequenos pedaços do mapa-múndi em meio a livros escolhidos aleatoriamente para serem encontrados por futuros leitores. Imagens de recordações de viagens são intercaladas com imagens dos livros, levando a uma reflexão poética sobre o transitar pelo mundo.

CAROLA SCHMIDT
Uma pulverização em diversas poses / Eine Zerstäubung in mehreren Posen

Vídeo. Alemanha, 2005, 13 min.
Em um velho teatro, antigas atrizes revivem após um sono centenário e disputam uma vaga em uma audição. No porão do teatro, uma personagem limpa com vigor todo o pó do século, dissolvendo sua própria imagem. Outra figura misteriosa engole algodão, enquanto poemas sobre memória e culpa são lidos por várias vozes. Neste vídeo de impressionante resultado visual, a pulverização da história e seu apagamento são apresentados de forma surreal e poética. O filme reúne atuações de artistas de origem alemã, inglesa, australiana, brasileira e austríaca. O acerto de contas com a pesada história dos países de língua germânica se dá em ambiente multicultural contemporâneo.

HUGO FORTES
Noturno

Vídeo. Alemanha, 2006, 5 min.
Neva. É noite. Os últimos carros e transeuntes voltam para suas casas. Apenas os faróis continuam a piscar. Captado pela janela do próprio apartamento do artista em Berlim,
o vídeo propõe um olhar sobre a melancólica paisagem noturna berlinense, o tempo, o trânsito e o fluxo da vida. A solidão da noite gelada da metrópole dissolve-se lentamente no fluxo dos encontros e desencontros de seus habitantes.

LINA KIM
Escadas / Stairs

Vídeo. Alemanha/Índia, 2005, 4 min.
Captado durante uma viagem da artista à Índia, o vídeo mostra um homem lavando a escada de uma rua em uma cidade indiana, onde tudo é transitório, fluido e passageiro. A água escorre e reflete a cidade, enquanto transeuntes passam lentamente sem se importar.
Quase um cartão-postal em movimento, o trabalho solicita ao observador alguns minutos de atenção para contemplar o que há de poético e fugidio no trânsito anônimo dos pedestres.

MARTYNA STAROSTA
Exercícios piromaníacos / Pyromanic exercises

Vídeo. Alemanha, 2009, 11 min.
O vídeo é uma espécie de parábola sobre poder, impotência e terrorismo. Nesta irônica videoperformance, a artista afirma ser capaz de provocar incêndios a partir de poderes telepáticos em lojas de departamento, shoppings centers e em outros símbolos do capitalismo. A origem polonesa de Martyna Starosta lhe fornece um olhar crítico sobre o capitalismo que domina irrefreavelmente o mundo contemporâneo.

RABI GEORGES
Eu te fodo / I fuck you

Vídeo. Alemanha, 2007, 4 min.
Nesta videoperformance, o artista desafia valores da sociedade, interagindo corporal e sensualmente com esculturas e monumentos públicos em atitude iconoclasta e provocativa. Nascido na Alemanha, porém de origem árabe, o artista frequentemente realiza trabalhos em que questiona os choques culturais e os papéis sexuais tradicionais nas culturas ocidentais e orientais.

RACHEL ROSALEN & MARIT LINDBERG
Pós-diários / Post-diaries

Vídeo. Japão/Suécia, 2008, 15 min.
Uma artista brasileira e outra sueca reconstroem suas impressões sobre uma visita ao Japão cinco anos antes da edição final do vídeo. As memórias e as sensações que restaram dos momentos ali vividos são reelaboradas a quatro mãos, criando uma narrativa fragmentada e construída com percepções sensíveis de uma cultura distante no espaço e no tempo.

SILVIA MARZALL
Momento: suspenso / Moment: raised

Videoinstalação com dois canais. Alemanha, 2007, 3 min.
Nesta videoinstalação, o movimento de um homem e de uma mulher em balanços é mostrado de forma a colocar em suspensão o poder da gravidade e a passagem natural do tempo. O momento do ápice da suspensão no ar ao balançar é estendido causando tensão e fazendo parecer que os corpos das personagens estão prestes a se soltar. A ideia de trânsito constante e fluidez está expressa metaforicamente no vaivém dos balanços. Os vídeos, projetados sobre uma claraboia, procuraram abrir na arquitetura um espaço mais fluido. O trabalho foi realizado com participação do artista australiano Govinda Lange.

SÍSSI FONSECA
Trajetos

Performance. Brasil, 2010, 20 min.
Nesta performance, a artista circula entre os visitantes da exposição, caminhando de diversas formas como em diferentes situações nas ruas das metrópoles. Ela observa o gestual dos transeuntes e interage com o público. Em seus trajetos, Síssi Fonseca assume diferentes identidades e posturas, misturando-se à multidão anônima das cidades. No fim da performance, ela abre um imenso mapa imaginário criado a partir de fragmentos do GoogleMaps que remetem aos locais por onde ela passou e com os quais se relaciona. Sobre esse mapa a artista marca seus passos e os de outros indivíduos que coabitam o mesmo espaço.

ULF AMINDE
Continue / Weiter

Vídeo. Alemanha, 2003, 10 min.
O trabalho de Ulf Aminde é marcado pela crítica social exercida a partir de um ponto de vista irônico e poético. Neste vídeo, o artista convida punks para brincar de dança das cadeiras na frente de um prédio abandonado. O trabalho apresenta um comentário irônico sobre as disputas e os trânsitos sociais.

WAGNER MORALES
As boas maneiras / Les bonnes manières

Videoinstalação com dois canais. França/Brasil, 2006, 8 min.
A partir de uma residência realizada em Paris, o artista observa os costumes franceses e confronta a imagem que se tem da França propagada em livros de boas maneiras com a realidade da vida diária no metrô e nas ruas desta metrópole europeia. O fluxo incessante de uma população multicultural parece lembrar-nos da impossibilidade de frear o tempo e reter as tradições em meio à dinâmica da metrópole.
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