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Situ/ação: vídeo de viagem

ABERTURA
03 junho, 2007 - 19h00
VISITAÇÃO
04 de junho a 15 de julho de 2007
CURADORIA
Paula Alzugaray
ARTISTAS PARTICIPANTES
Alice Miceli, Ann Marie Peña, Antoni Muntadas, Bia Gayotto, Carla Zaccagnini, Cinthia Marcelle, Consuelo Lins, Dora Longo Bahia, Fabio Morais, Giselle Beiguelman, Inês Raphaelian, Jean Meeran, Josely Carvalho, Juliana Mundim, Kika Nicolela, Naiah Mendonça, Rafael Campos, Ricardo Van Steen, Rosângela Rennó, Wagner Morales

Paula Alzugaray

Aqui passa o trópico
O Ocidente, assim como sua contrapartida oriental, é uma construção fictícia baseada em mitos e fantasias. Ella Shohat O projeto de lei, aprovado pela Câmara dos Representantes dos EUA, em 2006, para a construção de um muro de 1,1 quilómetros na fronteira do país com o México revela, mais que uma questão de segurança nacional, um projeto de instrumentalização do medo. Com o endurecimento da política de imigração, o projeto prevê um muro superdotado de câmeras operadas à distância, monitoramento via satélite, sensores de detecção, entre outras tecnologias. A realidade é que, materiais ou virtuais, muros já existem há séculos na região, como mostra o documentário On Translation: fear/miedo, de Antoni Muntadas. O vídeo procura analisar a retórica que constrói e sustenta a fronteira, intercalando depoimentos tomados dos dois lados da divisa San Diego/ Tijuana, a respeito dos sentimentos em relação ao desconhecido. Em ambos os casos, o medo é um muro a ser transposto. Uma das entrevistadas afirma que o sistema de controle e vigilância é, mais que uma condição da fronteira, um problema que se manifesta no mundo por meio do domínio da linguagem. "Todos temos que falar inglês. Temos que entender a eles e não eles a nós". Quem cruza uma fronteira depara-se com uma mudança de paradigmas. Problemas relativos a tradução acompanham o viajante desde sempre. As línguas "civilizadas" das economias dominantes determinaram a forma como as culturas "primitivas" foram entendidas, documentadas e historiografadas pelo explorador do Novo Mundo e, mais tarde, como o cineasta antropólogo posicionou sua câmera para um contexto desconhecido. O problema do entendimento do outro é, portanto, uma questão compartilhada entre os pintores das missões artísticas e científicas, os fotógrafos viajantes, os fotojornalistas, os cineastas etnógrafos, os documentaristas e os artistas contemporâneos - principalmente os que saem a campo, participam de residências em países estrangeiros, vivem a condição de imigrantes, ou que, mesmo em uma posição sedentária, trabalham com a cultura estrangeira como matéria artística.

O intuito da mostra Situ/ação: vídeo de viagem é pensar o estatuto contemporâneo do artista viajante, contemplando trabalhos que tensionam os limites do género do filme de viagem. Diários de bordo, registros de processos e deslocamentos, e narrativas sobre margens são algumas direções apontadas por esse artista nómade, que em meados dos anos 1990 foi identificado e associado, pelo crítico norte- americano Hal Foster, ao paradigma etnográfico na arte contemporânea2. A exposição se divide em dois ciclos: Margens e Deslocamentos. O primeiro apresenta trabalhos que retiram da fronteira e do limite - algumas vezes de um ponto de vista sedentário - uma experiência comunicável. Deslocamentos, o segundo, observa as narrativas sobre contextos culturais e geográficos, a partir da perspectiva do movimento. Entendido como capítulo inicial do cinema documental, o filme de viagem apresenta uma série de características que merecem ser recontextualizadas no âmbito da produção artística contemporânea. A primeira delas é a narrativa de acontecimentos distantes e de localidades pouco conhecidas. Restrita até o século 19 a aventureiros exploradores, que traziam para casa imagens e relatos para entreter e informar plateias de curiosos, a palestra ilustrada é revista na presente exposição nos relatos das viajantes Alice Miceli e Inês Raphaelian.

A aventura e o registro acidental de territórios nunca dantes visitados também atualiza-se na videocrônica de Kika Nicolela e na coleção de filmes de bolso de Juliana Mundim. Ao observar a peculiaridade a que pode chegar um objeto tão vulgar quanto um rádio-relógio, Dora Longo Bahia e Ann Marie Pena nos falam afinal sobre a relatividade entre o próximo e o distante. Em chave de leitura similar, Wagner Morales faz uma apologia do documentário etnográfico, relativizando as distinções entre vida selvagem e comportamento civilizado. Se, como indica Hal Póster, no paradigma etnográfico o lugar da transformação artística e política será sempre fora, "no campo do outro cultural",3 consideramos que os diálogos, negociações e transações com a alteridade cultural são desafios que se apresentam no momento em que se sai a campo. Alguns trabalhos, como o Diário de Imagens, que intercala páginas do diário da artista Josely Carvalho e do soldado iraquiano Aboud é uma dessas propostas que propõem o redimensionamento do que nos aproxima e nos distancia uns dos outros. Outra é a parceria entre a brasileira Cinthia Marcelle e o sul- africano Jean Meeran, que produz um corte transversal no género do filme etnográfico, desmistificando temas tratados como exóticos. Nesses jogos de renegociação histórica, o resultado da residência de Rosângela Rennó na Ilha da Reunião, apresenta o créole como língua de resistência, construída com elementos do idioma do dominador. Num duelo de provérbios, a videoinstalação Brèd e[k/t] Chocolat investiga em que medida a língua delimita um povo e uma identidade.

A revisão do discurso colonialista proposta por Rennó é reforçada pela subversão da história eurocêntrica nos cadernos de viagem de Rafa Campos. A inversão de valores proposta aqui chega ao ponto de produzir a referência à alta cultura (história) por meio da cultura popular (o fanzine). O limite entre cultura e identidade é a questão demarcada pelos trabalhos de Bia Gayotto, ao observar o corpo como território cultural, e de Fábio Morais, ao inventar uma geografia utópica, em que 21 idiomas compõem uma só ilha, cercada de água dos quatro oceanos. Como estabelecer a fronteira entre um mar e outro? O oceano surge como identidade comum no projeto Duas margens, de Carla Zaccagnigni, mesmo que duas praias do Pacífico sejam separadas pelo dia e pela noite. A impossibilidade de entendimento, no entanto, permanece em Words don' t come easily, de Naiah Mendonça. A relação com a paisagem, que estava na base dos panoramas e travelogues, é outra premissa da viagem.

Os trabalhos de Giselle Beiguelman e de Consuelo Lins abordam paisagens em movimento intermediadas pela câmera do celular. Beiguelman pesquisa a luz e o movimento como elementos desagregadores da imagem, e Lins relaciona a narrativa literária ao movimento de travelling da câmera. A mesma horizontalidade aparece na aquarela de Ricardo van Steen. Só que a técnica da aquarela, que foi substituída pelo vídeo digital como o instrumento de registro preferido do artista viajante, não produz nesse trabalho um instantâneo da realidade, mas representa o horizonte perene dos livros de etnografia. Literatura e cartografia também se interpenetram no vídeo de Cão Guimarães, que registra uma ação realizada em parceria com Rivane Neuenschwander, em biblioteca de Estocolmo. Lembrando Robert Flaherty, que nos anos 1920 libertou o filme de viagem da condição de documento etnográfico, dizendo ser necessário mentir para captar o espírito das coisas, os trabalhos apresentados na mostra são atos da imaginação. Assim como os meridianos, os círculos polares e os trópicos são linhas geográficas imaginárias que dividem o mundo.

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