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"A queda do céu"

Curadoria de Moacir dos Anjos

ABERTURA
10 abril, 2015 - 19h00
VISITAÇÃO
10 de abril a 5 de julho de 2015
Grátis

CURADORIA
Moacir dos Anjos
ARTISTAS PARTICIPANTES
Anna Bella Geiger, Cildo Meireles, Claudia Andujar, Harun Farocki , Jimmie Durham , Leonilson, Maria Thereza Alves , Matheus Rocha Pitta, Miguel Rio Branco, Orlando Nakeuxima Manihipi-theri, Paulo Nazareth, Paz Errázuriz, Regina Galindo, Vincent Carelli
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A queda do céu

Moacir dos Anjos
O título desta exposição é referência explícita ao livro do xamã yanomami Davi Kopenawa, escrito em parceria com o antropólogo francês Bruce Albert e publicado originalmente na França (La chute duciel, 2010). No livro, Kopenawa apresenta a cosmogonia que rege as crenças de seu povo – fundada em intricada e instável relação entre humanos, floresta e espíritos – e narra as ameaças a estes fundamentos de vida que resultam das ações predadoras do “homem branco” ao longo de séculos. 

Ações como a mineração que, movida pelo lucro desmedido e imediato, danifica e contamina solos e rios; como o desmatamento incessante que desmancha ecossistemas inteiros;como a construção de barragens que desviam ou secam cursos d’água;ou ainda a introdução, por vezes intencional, de doenças que devastam populações indígenas sem defesas para males que sequer conheciam. Ações que atingem inúmeros outros povos nesse pedaço de mundo que o processo de colonização passou a chamar de Américas, e que tem tradução simbólica no ingresso forçado de crenças religiosas pertencentes a tradições distantes e distintas. Ações brutais que, em última instância, visaram e visam a apropriação patrimonial das terras que os povos ameríndios habitam, levando-os a uma situação de despossessão absoluta que os priva do território físico e simbólico ao qual pertencem.

Para além da denúncia, o relato de Kopenawa é também de alerta para as consequência últimas das violências sofridas pelo povo yanomami e por tantas outras etnias, as quais atingirão, mais cedo que tarde, a todos os que vivem na Terra. Segundo a narrativa exposta no livro, o extermínio continuado das populações indígenas e de seus xamãs por epidemias, pela destituição de seus meios de sobrevivência ou por mero assassínio impede que estes possam evocar os espíritos (xapiris) que os habitam e assim conter a instalação do caos em um ambiente constitutivamente conflituado e entrópico. Enfraquecidos e em pouco número, os xamãs são cada vez menos capazes de se contrapor às forças contrariadas pela destruição progressiva das condições de existência no planeta. Como resultado, ensina a mitologia yanomami, o céu que cobre e abriga todos será progressivamente fraturado, ao ponto de um dia desabar sobre o chão, marcando o fim de um tempo e de todas as formas conhecidas de vida.De modos variados, essa profecia de um término para o que existe aparece nos modos de entender o mundo de vários outros povos ameríndios. A queda do céu é construção simbólica que assinala a fadiga insuportável imposta a um ecossistema instável, que faz com que a própria Terra reaja de maneira desesperada e por vezes violenta. Ao fim e ao cabo, Gaia cobra de todos a impagável conta.

Esta exposição não tem a desmedida pretensão de conter as tantas questões envoltas na ideia de um céu em queda por ter sido deliberadamente enfraquecido pelos atos de ganância e ódio que ancoram os modos hegemônicos de se relacionar com um lugar de vida partilhado por tantos. Ela quer, contudo, aproximar e articular trabalhos artísticos que prenunciam, evidenciam e combatem a progressiva despossessão sofrida por populações indígenas iniciada em seu contato involuntário com o colonizador branco: aquele que lhes quis e ainda quer subtrair a sua condição de humanos, e que não suporta o convívio com a diferença. A mostra apresenta trabalhos oriundos de partes distintas das Américas menos como inútil tentativa de abarcar um território imenso e diverso e mais como vontade de amolecer fronteiras políticas que nada significam para aqueles que têm há mais tempo sofrido com o desabar progressivo do firmamento.Trabalhos que afirmam, ademais, que ao lado e ao largo das violências que os atingem por séculos, os povos ameríndios adotam formas desesperadas de resistir à morte lenta ou imediata que lhes é imposta. De resistir ao fim de seu mundo, que é também o mundo de qualquer um. Resistências que vão do confronto físico à reza, em arco amplo de gestos em que alguns artistas não-indígenas (poucos, ainda) se tornam parceiros solidários na luta daqueles para que o céu não caia.

Moacir dos Anjos é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife (PE). Foi diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães - MAMAM (2001- 2006) e pesquisador visitante no centro de pesquisa TrAIN – Transnational Art, Identity and Nation, University of the Arts London (2008-2009). Foi curador do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza (2011), curador da Bienal de São Paulo (2010), co-curador da Bienal do Mercosul, PoA (2007) e curador do Panorama da Arte Brasileira, MAM SP (2007). 

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