Atuações: a palavra, no
contexto morfológico da língua portuguesa, designa o substantivo plural do
verbo atuar; já no teatro, é uma das
denominações referentes à arte do ator. A partir de uma interpretação livre – e
com a intenção de relacionar ambos os significados –, pode-se dizer que a
prática representativa está naturalmente aplicada à “vida real”, não se
limitando, portanto, às artes cênicas e visuais.
Poderíamos nos perguntar se uma pessoa em um determinado contexto – como
em uma entrevista de emprego, por exemplo – não estaria atuando e/ou, de certa
forma, “performando”. O que determinaria nesse caso a fronteira entre essas
duas ações? Ou, então: em um documentário verídico, em que os participantes não
são necessariamente “atores”, como se denominaria a participação desses
personagens, visto o desafio de se estar diante de uma câmera?
É a partir de questões como essas que o ato de atuar foi pensado como um
mediador entre a performance e o audiovisual. Para Atuações, foram reunidos tanto trabalhos que partem de reflexões
sobre o corpo, provocando questionamentos referentes à câmera, quanto trabalhos
que, a partir do audiovisual, provocam questionamentos acerca da própria atuação na performance. Ademais, tratam-se
de trabalhos que podem ser analisados pela ótica do cinema, isto
é, eles podem ser pensados de acordo com os prováveis gêneros a que são
remetidos.
Sendo assim, Atuações
apresenta 16 vídeos, tendo como referência a subdivisão em grandes gêneros
cinematográficos: documentário, com
os trabalhos de Mavi Veloso, Igor Vidor, Leo Ayres e Rodrigo Braga; suspense, com Guilheme Peters e
Christoph Draeger; ficção científica,
com Luiz Roque, Guilherme Teixeira e Ana Elisa Carramaschi; fantasia, com Paulo Nazareth, Flamínio
Jallageas e Angella Conte; musical,
com Ana Dupas e Marcelo Amorim; e pornô,
com Arthur Tuoto e Fagus.
Em Atuações, partiu-se da
necessidade de superexpor esses
gêneros classificatórios, na tentativa de mesclar conceitos do cinema, das
artes visuais e cênicas, isto é, desorganizar e reclassificar, por meio de um
registro comum – o vídeo –, não apenas os gêneros, mas também as interpretações
destes.
A programação dessa mostra, portanto, certamente poderia ser
reorganizada, visto que o objetivo não é restringir os trabalhos a uma única classificação,
mas pensar suas relações com a atuação e a performatividade dos “personagens”,
pois em todos os trabalhos aqui escolhidos verificamos que é o corpo que dirige
a cena, enquanto o audiovisual “imprime” na imagem videográfica o corpo em
atuação.