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Estado de Exceção

ABERTURA
31 agosto, 2008 - 19h00
VISITAÇÃO
1 de Agosto a 21 de Setembro de 2008.
CURADORIA
Marcelo Rezende
ARTISTAS PARTICIPANTES
Alice Shintani, Beom Kim, Eduardo Staszowski, Giorgio Ronna, Junebum Park, Lina Kim, Marcelo Reginato, Raquel Garbelotti , Roberto Galisai , Rodrigo Matheus, Rogério Lira, Wagner Morales

Uma manifestação, não uma exposição

Marcelo Rezende
De início, não uma explicação, mas um esclarecimento sobre o que Estado de Exceção não é, e jamais poderá ser: uma ilustração, um mergulho entre diferentes culturas, uma ação social em nome da arte, um símbolo, um gesto de conciliação, uma metáfora e, sobretudo, uma exposição. Estado de Exceção não poderá ser definido como um laboratório, uma plataforma, uma estação e um campo relacional. Sua intenção está em outra parte, se executa por meio de um processo de demolição, pelo campos onde não poderá jamais estar, por aquilo que não é. Sua posição é de outra origem. Estado de Exceção é uma manifestação.

Em 1983, o filósofo francês Jean-François Lyotard (1924-1998) propôs junto ao Centre Georges Pompidou um intenso processo de destruição dos mais diferentes esquemas da arte, e do espaço de exposição, com o projeto Les Immatériaux. Lyotard, como curador, tomava “a direção intelectual” de um projeto. Sua argumentação se estruturava pelo desejo de uma recusa, não cedendo à narrativa que uma exposição necessita, de sala em sala, em um salão ou museu. Lyotard, essa sua marca, se preocupava com um conceito até então excitante e ainda distante da banalização – uma quase morte, cinicamente decretada pelo violento processo de despolitização vivido no Ocidente nas duas últimas décadas. Jean-François Lyotard era o intelectual do “pós-moderno”. Em uma carta escrita em Milão, em 15 de maio de 1982, um ano antes de Les Immatériaux, ele monta um quadro da situação ao seu redor: “Nós estamos em um momento de relaxamento, eu falo da cor do tempo. De todos os lados nos pressionam para terminar com a experimentação, na arte e em qualquer parte. Eu li um historiador da arte que prega os realismos e milita pelo surgimento de uma nova subjetividade (...) Li que sob o nome de pós-modernismo os arquitetos se desembaraçam do projeto da Bauhaus, jogando a criança, ainda a experimentação, com a água do banho funcionalista. Li nos escritos de um historiador de peso que os escritores e pensadores das vanguardas dos anos 60 e 70 fizeram reinar o terror no uso da linguagem e que é preciso restaurar as condições de debate frutífero impondo aos intelectuais uma maneira comum de falar, a dos historiadores” (1). A descrição de Lyotard não é a do passado, mas de um presente que parece eterno.

Criar uma estratégia com os mecanismos da arte para se opor a essa situação o leva ao conceito de manifestação, em oposição à exposição: “O conceito de ‘manifestação’, que se inspira de um espaço-tempo quase não traçado (...) coloca em questão a representação tradicional das exposições herdadas do século 18, as galerias. A manifestação não é representativa, não é explicativa, não é ilustrativa. A manifestação ‘acontece’: é algo que não se antecipa, não se decide, não se apresenta, como um acontecimento (...) ela se parece com uma exposição, ela interroga os operadores do espaço-tempo que a exposição aplica às obras (...) experiência de escrita coletiva (...) bloco de notas que se parecem com fac-símiles de documentos de trabalho mostrando o trabalho em andamento. (2)

Aqui, o bloco de notas se inicia com uma anotação, uma idéia. O filósofo Giorgio Agamben fala: “É essa terra de ninguém entre o direito público e o fato político e entre a ordem jurídica e a vida que a presente pesquisa se propõe a explorar. Somente erguendo o véu que cobre essa zona incerta poderemos chegar a compreender o que está em jogo na diferença – ou na suposta diferença – entre o político e o jurídico e entre o direito e o vivente. E só então será possível, talvez, responder à pergunta que não pára de ressoar na história política ocidental: o que significa agir politicamente?”. Essa é então a primeira ferramenta, em “Estado de Exceção” (ed. Boitempo, 2004) – o ensaio sobre as relações entre o cidadão e o Estado.

A segunda peça, um circuito marcado mais pela ausência do que pela presença: as relações entre a cidade e um grupo social de imigração recente, que vive o país e a metrópole tanto quando se ausenta, estando a um só tempo dentro e fora, fazendo de seu estado algo indefinível e flutuante ao criar ligações e as desfazer, sendo visível e invisível. Ver a Coréia de São Paulo é ver diferentes estados de exceção, não apenas do poder institucional sobre o cidadão, mas, ainda, do poder de uma comunidade sobre a outra, em um regime de forças que borra a fronteira entre nativo e estrangeiro, dialeto e língua franca, tecnologia e artesanato, oriental e ocidental, exceção e regra. A questão, para Estado de Exceção, é provocar uma situação que possa gerar uma escrita coletiva, na qual artistas não fazem da representação, ilustração e explicação um instrumento. Assim podem, de forma livre, como fala Agamben, “erguer o véu que cobre essa zona incerta”. É desse modo que Estado de Exceção se manifesta.


1- Lyotard, Jean-François. Le Postmoderne explique aux enfants. Paris, ed. Galilée, 2005.
2- Alizart, Mark. Manifestations, em Fresh Théorie Volume.III. Paris, ed. Léo Scheer.
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